Dez senadores eleitos para a próxima legislatura colocam a abertura de um processo de impeachment contra Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), entre suas principais prioridades. O grupo inclui Rogério Marinho (PL-RN), Bia Kicis (PL-DF) e Marcel van Hattem (Novo-RS), que associam o avanço da pauta à mudança no comando do Senado.
Disputa pelo comando do Senado
Os parlamentares defendem que Davi Alcolumbre (União-AP) não permaneça na Presidência da Casa. A eleição da Mesa Diretora está marcada para 1º de fevereiro de 2027 e deve definir quem terá influência sobre a organização dos trabalhos e a tramitação de propostas no Senado.
Marinho, apontado como possível candidato ao comando da Casa, evitou apresentar explicitamente o impeachment de Moraes como bandeira de sua candidatura. Pressionado pela disputa pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que apoia a recondução de Alcolumbre, ele afirmou que não será omisso e que zelará pela ordem constitucional.
O senador Marcos Pontes (PL-SP) condicionou seu voto em Marinho à promessa de que o processo contra Moraes seja colocado imediatamente em pauta. A eleição para a presidência do Senado, portanto, é vista pelos defensores do impeachment como um passo para transformar o apoio declarado à proposta em ação legislativa.
Votos e mobilização política
Parte dos nomes da lista teve desempenho expressivo nas eleições de 2026. Guilherme Derrite (PP-SP) recebeu 13.273.880 votos, Carlos Jordy (PL-RJ) obteve 3.912.405 e Van Hattem, 3.449.053. Carol de Toni (PL-SC) alcançou 33,46% dos votos em seu estado, enquanto Derrite teve 30,59% em São Paulo.
Os dez parlamentares são descritos como especialmente ativos no enfrentamento ao que consideram abusos do Judiciário, tanto nos mandatos quanto nas campanhas. Alguns foram alvo de ações judiciais relacionadas a essa atuação. Depois das eleições, eles mantiveram a mobilização nas redes sociais, onde denunciam censura e perseguição judicial e criticam a atuação conjunta que atribuem ao STF, ao governo Lula e à cúpula do Legislativo.
Além dos dez nomes, a articulação em favor do afastamento de Moraes conta com o apoio de Michelle Bolsonaro (PL-DF), Carlos Bolsonaro (PL-SC), Carlos Portinho (PL-RJ), Sanderson (PL-RJ), Damares Alves (Republicanos-DF), Plínio Valério (PSDB-AM) e Deltan Dallagnol (Novo-PR), entre outros. Para os defensores da medida, o impeachment seria uma forma de reequilibrar a relação entre os Poderes e fortalecer as funções do Legislativo.
Apoio declarado não define o resultado
O avanço da direita no Senado não garante a abertura ou a aprovação de um processo. Das 54 vagas preenchidas no pleito de outubro, pelo menos 37 dos senadores eleitos ou reeleitos manifestaram apoio público ao mecanismo institucional de afastamento de ministros do STF. A ONG Ranking dos Políticos estima que 54 senadores seriam favoráveis à destituição de ministros em 2027, número equivalente a dois terços da Casa.
O levantamento sobre pedidos de impeachment protocolados contra integrantes do Supremo contabiliza mais de cem representações. Moraes concentra 66, mais da metade do total. As petições, apresentadas por parlamentares e cidadãos, apontam supostos crimes de responsabilidade. O volume de pedidos reflete a centralidade do ministro no conflito político entre grupos conservadores e o Judiciário, intensificado desde a abertura do Inquérito das Fake News, em 2019.
A lista dos dez senadores que estão na linha de frente da pauta é formada por Rogério Marinho, Bia Kicis, Marcel van Hattem, Guilherme Derrite, Magno Malta (PL-ES), Evair de Melo (Republicanos-ES), Carlos Jordy, Gustavo Gayer (PL-GO), Carol de Toni e Márcio Bittar (PL-AC).
Influência dependerá da Mesa Diretora
Adriano Cerqueira, professor de Ciências Políticas do Ibmec-BH, avalia que os novos senadores terão peso na próxima legislatura pelo número e pelo engajamento. A influência deles sobre a rotina da Casa, porém, dependerá do resultado da eleição para a Mesa Diretora e da capacidade de a oposição converter sua força numérica em controle da pauta.
“O Congresso se tornou trincheira da oposição, o que exige estratégia para permitir que algo diferente possa ser feito”, afirmou Cerqueira. A disputa pelo comando do Senado também terá efeitos sobre a tramitação de outras matérias e decisões da Casa.
Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, observa que o Senado terá papel determinante na análise de indicações de Lula para agências reguladoras e para o STF. Segundo ele, esse poder exigirá negociação do governo. “Em certas circunstâncias, negociar é politicamente mais produtivo do que confrontar”, disse.

