Eleito para um quarto mandato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de negociar apoio no Congresso para aprovar medidas do governo. Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que analisou a composição do Legislativo eleito em outubro, aponta que apenas 124 dos 513 deputados são aliados estáveis do Planalto, o menor grupo desse tipo desde o início do governo Fernando Collor, em 1990.
O desafio será converter o apoio condicionado de outros parlamentares em votos para propostas ligadas à política econômica, ao Orçamento e às reformas defendidas pelo Executivo. O Diap classifica 246 deputados nessa categoria. Somados aos 124 aliados consistentes, eles formam um grupo potencial de 370 votos, equivalente a 72,1% da Câmara.
Esse total supera os 299 deputados classificados nas duas categorias no início do terceiro mandato de Lula, em 2023. A diferença, segundo o levantamento, é que o presidente começa o novo período com menos aliados permanentes e dependerá de negociações com um contingente maior de parlamentares.
PL amplia espaço da oposição
O Partido Liberal (PL), ligado a Flávio Bolsonaro, terá a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e também liderará a representação do partido no Senado. O tamanho das bancadas pode ampliar a participação da legenda no comando de comissões e sua capacidade de convocar integrantes do governo, fiscalizar políticas públicas e articular investigações parlamentares.
No Senado, o Diap identifica 34 dos 81 parlamentares como oposicionistas, o maior número registrado pela entidade em sua série histórica. Lula deverá contar inicialmente com 16 senadores de apoio consistente. Outros 31 são classificados como apoiadores condicionais, cujo voto dependerá de negociação.
A oposição também precisará buscar apoio para propostas que exigem quórum elevado. Uma proposta de emenda à Constituição (PEC), por exemplo, precisa de 49 votos no Senado. Esse número supera os 34 senadores classificados como oposicionistas pelo Diap, o que torna necessário articular votos além do grupo.
Direita cresce nas duas Casas
A nova composição do Congresso terá mais parlamentares identificados com a direita. Na Câmara, esse grupo ocupará 260 das 513 cadeiras, ante 244 na composição anterior. No Senado, passará de 32 para 48 representantes e alcançará a maioria absoluta da Casa.
Ao mesmo tempo, as bancadas de centro-direita diminuíram. Na Câmara, caíram de 94 para 81 deputados; no Senado, de 21 para oito parlamentares. De acordo com o Diap, parte da mudança reflete a perda de espaço de partidos tradicionalmente associados ao Centrão, como União Brasil e PP.
Apesar da redução das bancadas, essas siglas devem continuar relevantes para as negociações do Executivo. Com pouco mais de uma centena de aliados estáveis na Câmara, Lula precisará buscar votos também fora de seu campo político para aprovar prioridades do governo.
Negociações definirão força do governo
O levantamento aponta uma base estável menor do que a observada em outros governos. Dilma Rousseff começou o primeiro mandato com 351 deputados e 55 senadores classificados como apoiadores consistentes. No primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, havia 257 deputados e 37 senadores nessa condição.
O Diap afirma, porém, que os números não permitem antecipar o grau de dificuldade que Lula terá para governar. A vitória presidencial, as relações já estabelecidas com partidos de centro e as divergências internas da oposição podem favorecer acordos. A decisão de Flávio Bolsonaro de contestar o resultado eleitoral também pode dificultar a articulação do PL com legendas que queiram manter canais de negociação com o Planalto.
Um dos primeiros sinais sobre a relação entre governo e Congresso será a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, prevista para fevereiro de 2027. O resultado influenciará a distribuição de cargos nas comissões, a definição das pautas de votação e o espaço de negociação do Executivo.
Assim, os 370 votos potenciais apontados pelo Diap não representam uma base garantida. O apoio dos 246 deputados condicionais dependerá de negociações para cada tema. O presidente terá espaço para formar maiorias, mas começa o mandato com a menor bancada de sustentação estável na Câmara em mais de três décadas.

