Mais de 80% dos profissionais recorrem à IA em vez de pedir ajuda a colegas


Uma pesquisa recente da BetterUp, empresa americana de tecnologia, em parceria com o Stanford Social Media Lab, indica que a inteligência artificial (IA) está substituindo parte das interações entre colegas de trabalho. Segundo o levantamento, 83% dos profissionais recorrem à tecnologia em vez de consultar um colega para obter informações rápidas, enquanto 37% a usam para conversas breves ou contatos de rotina.

Os dados apontam para uma mudança na colaboração dentro das equipes. Kate Niederhoffer, cientista-chefe e diretora do BetterUp Labs, afirma que empresas têm priorizado a preparação individual para o uso de IA sem considerar suficientemente seus efeitos sobre o conjunto do ambiente de trabalho.

Conhecimento cresce, mas coordenação enfrenta desafios

Niederhoffer diz que equipes de alto desempenho dependem de três elementos: conhecimento especializado, confiança e coordenação. Na avaliação dela, a IA pode ampliar o conhecimento especializado, mas isso não significa que os outros fatores avancem no mesmo ritmo.

“Quando analisamos o impacto da IA sobre esses três fatores, vemos que o conhecimento especializado está aumentando”, afirma a executiva. Ela acrescenta que a confiança e os relacionamentos não acompanham necessariamente esse avanço. O descompasso pode elevar o custo de coordenação, isto é, o esforço necessário para que as pessoas alinhem tarefas e trabalhem em conjunto.

Esse processo também pode alterar a forma como os funcionários percebem o próprio papel e o dos colegas. Pessoas que consideram seu trabalho menos importante têm 1,5 vez mais probabilidade de substituir um colega por uma ferramenta de IA. De acordo com Niederhoffer, elas também têm mais chances de sentir que foram substituídas.

Entre profissionais que se sentem menos seguros psicologicamente no trabalho, a probabilidade de recorrer à IA no lugar de um colega é 2,1 vezes maior. Segurança psicológica, nesse contexto, diz respeito à sensação de poder se expressar e interagir no ambiente profissional sem receio de julgamento. A pesquisa relaciona esse retraimento à deterioração da colaboração.

Substituição pode afetar relações entre colegas

O estudo também registra que quase metade dos entrevistados afirma ser procurada menos pelos colegas por causa da IA. Entre os profissionais que dizem ter sido substituídos pela tecnologia, a probabilidade de querer trabalhar novamente com o colega responsável pela substituição é 3,3 vezes menor.

Para Niederhoffer, a percepção de que o trabalho não tem propósito ou de que as próprias habilidades não são valorizadas pode alimentar um ciclo de afastamento. A pessoa pode acreditar que os colegas não querem trabalhar com ela e, por sua vez, passar a evitá-los.

A executiva afirma que a queda na coordenação e na confiança está quase exclusivamente ligada ao comportamento de trocar o contato com uma pessoa pela busca de respostas na IA. O levantamento, porém, não esclarece se os profissionais recorrem à tecnologia porque já se sentem distantes dos colegas ou se o uso da IA contribui para aprofundar essa distância.

Para quem já se sente desconectado da equipe, a interação com uma ferramenta pode parecer menos sujeita a julgamento do que uma conversa com outra pessoa. “As pessoas percebem menos julgamento por parte da IA do que por outro ser humano, para o bem ou para o mal”, diz Niederhoffer.

Redesenho do trabalho e incentivos à colaboração

A BetterUp defende que a adoção da IA venha acompanhada de mudanças na organização do trabalho. Para Niederhoffer, as empresas precisam criar incentivos para que os funcionários colaborem e coordenem suas atividades em benefício do grupo. Uma das condições apontadas é que cada pessoa perceba que seu trabalho tem importância e produz impacto real na organização.

A empresa também recomenda desenvolver habilidades humanas junto com competências relacionadas à IA, estabelecer diretrizes para reinvestir nas pessoas o tempo economizado com a tecnologia e investir na construção de relacionamentos. Outra medida sugerida é revisar concepções antigas sobre o que é necessário para trabalhar em equipe.

As recomendações respondem a uma tensão apontada no estudo: a IA pode ampliar o acesso a conhecimento especializado, mas a substituição de interações cotidianas pode afetar confiança e coordenação. Na visão de Niederhoffer, preparar funcionários para usar ferramentas tecnológicas, sem considerar como elas mudam a cooperação, deixa de lado parte das condições necessárias para o desempenho coletivo.

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