Por Que os Palestinos Ainda Lutam pela Solução de Dois Estados?


A Busca por Paz Duradoura em Gaza: O Caminho a Seguir

Em setembro de 2025, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um ambicioso plano de paz com a promessa de não apenas reconstruir a devastada Gaza, mas também de estabelecer “a paz eterna no Oriente Médio”. No entanto, um ano depois, os objetivos permanecem longe de serem alcançados. O grupo Hamas não se desarmou, e Israel ainda domina mais de 60% da faixa de Gaza. Promessas de um governo tecnocrático e de uma força de segurança internacional ainda não saíram do papel, e a reconstrução em grande escala mal começou. A realidade para a maioria dos gazenses é cruel, com dificuldades constantes para acessar alimentos, água e abrigo. À medida que as eleições israelenses se aproximam, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu endureceu sua posição, rejeitando um acordo de desarmamento apoiado pelos EUA. Embora o Conselho de Paz — criado por Trump para implementar seu plano — tenha recentemente divulgado um programa de reconstrução, fontes confirmam que os esforços para pressionar Netanyahu a cumprir o acordo foram suspensos devido às eleições.

A Percepção dos Israelienses

Esta postura rígida de Netanyahu ressoa com a maioria dos israelenses, que frequentemente acreditam que os palestinos não estão interessados em negociações ou diálogos de paz. Pesquisas têm consistentemente demonstrado que um percentual significativo deles acredita que os palestinos não desejam a paz, e, portanto, não são considerados parceiros de negociação legítimos. Em uma pesquisa realizada em julho de 2025 pela Universidade de Tel Aviv, 72% dos israelenses afirmaram que os palestinos estavam “moderadamente ou muito contrários” a qualquer negociação de paz, e mais de 80% acreditavam que uma paz duradoura era inatingível.

Entretanto, essa percepção distorce bastante a realidade que prevalece entre os palestinos. Por duas décadas, o Arab Barometer, um projeto de pesquisa que ajudamos a coordenar, tem realizado amplas pesquisas sobre a opinião pública palestina na Cisjordânia e em Gaza. Nossa pesquisa mais recente, realizada em outubro de 2025, revelou que a maioria dos palestinos vê as negociações diplomáticas, e não a resistência armada, como a melhor maneira de resolver o conflito israelense-palestino. Embora a situação no terreno não tenha mudado de forma significativa desde então, os dados são corroborados por outra pesquisa conduzida em agosto pelo Centro Palestino de Pesquisa e Consulta (PCPSR), um parceiro do Arab Barometer.

O Futuro da Palestina

Muitos palestinos possuem uma visão clara e realista para o futuro. Um número considerável deles apoia a opção de dois Estados, mais do que qualquer outra resolução possível. Os gazenses, apesar do impacto devastador dos conflitos recentes, estão entre os mais pragmáticos: uma proporção ainda maior está aberta à solução de dois Estados do que os palestinos da Cisjordânia. Metade dos gazenses apoiaria a normalização das relações diplomáticas com os Estados árabes, desde que isso inclua progresso palpável em direção à autodeterminação palestina. Além disso, a confiança dos palestinos na liderança do Hamas e na Autoridade Palestina (AP) diminuiu significativamente; muitos acreditam que nenhuma das facções conseguiu assegurar sua segurança ou melhorar suas vidas e desejam uma renovação política. Notavelmente, a maioria dos gazenses expressa o desejo de permanecer e ajudar a reconstruir seu lar devastado, em vez de emigrar.

Condições Críticas em Gaza

A situação imediata em Gaza é desesperadora, enquanto as condições para os palestinos na Cisjordânia estão se deteriorando rapidamente. A realidade atual é insustentável, apesar da ausência de um fim claro para o conflito. Contudo, as próprias opiniões dos palestinos oferecem algumas esperanças. É fundamental que os israelenses escolham um governo mais comprometido com o diálogo. Se um governo assim, junto com doadores internacionais, optarem por tratar a autodeterminação palestina como uma parte central das negociações, tanto os gazenses quanto outros palestinos na Cisjordânia estão prontos para negociar. Eles estão dispostos a trabalhar por uma nova ordem política, mas isso deve ser uma verdadeira mudança.

O Realismo Palestino

Uma pesquisa do Arab Barometer, realizada em outubro, revelou como as condições se tornaram críticas em Gaza e na Cisjordânia. Enfrentando uma crise de segurança, econômica e humanitária, as respostas obtidas mostraram que 85% dos gazenses haviam sido deslocados pelo menos uma vez desde outubro de 2023, e que 61% relatavam que um membro da família havia perdido o emprego devido à guerra. As dificuldades são evidentes, com muitos relatando que nem conseguiram ter acesso à alimentação diária nos últimos dias. A interrupção da educação também é alarmante, com 31% das famílias com filhos em idade escolar afirmando que nenhum de seus filhos estava recebendo educação.

Na Cisjordânia, os residentes têm mais acesso a serviços básicos, mas enfrentam uma rápida deterioração da segurança. Apenas 58% descrevem seus bairros como seguros, o que representa uma queda de 16 pontos em relação a um ano atrás. Entre os palestinos da Cisjordânia, 92% afirmam que as condições econômicas são ruins, e 51% relatam que o alimento que compraram não durou o necessário. Diante dessas dificuldades, muitos consideram emigrar; 24% expressaram essa intenção, citando razões relacionadas à segurança, política e economia.

A Vontade de Permanecer e Reconstruir

Ainda assim, os gazenses permanecem esperançosos. A maioria afirmou que, se pudesse, não deixaria Gaza neste momento. O desejo de reconstruir suas vidas é forte. Ademais, apoio a uma solução de dois Estados tem crescido. Em 2025, 56% dos palestinos da Cisjordânia preferiam esse modelo, uma alta em relação a 2023. Em Gaza, essa adesão aumentou de 54% para 64%. Para as novas gerações, houve uma mudança significativa, com apoio por compromissos diplomáticos crescendo entre os jovens.

Os dados mostram que uma maioria dos gazenses está mais disposta a prosseguir com uma solução pacífica do que com a resistência armada. Quando questionados sobre a normalização das relações entre países árabes e Israel, 20% dos gazenses apoiavam essa abordagem desde que estivesse condicionada à criação de um Estado palestino, um aumento significativo desde a pesquisa anterior.

A Urgência de um Novo Arranjo Político

Os palestinos, especialmente os que vivem em Gaza, estão cada vez mais cientes de que seus líderes atuais falharam. A política palestina tem sido dominada por duas facções: o Fatah e o Hamas. Entretanto, a confiança em ambos os lados está em declínio. A pesquisa mais recente mostrou que a maioria dos palestinos, tanto na Cisjordânia quanto em Gaza, não se identifica fortemente com nenhum partido político. Uma nova forma de governança que promova a unidade e a transparência é essencial para reconstruir a confiança da população.

Uma proposta viável seria a formação de um governo tecnocrático para supervisionar os esforços em Gaza. Segundo uma pesquisa de agosto de 2026, 43% dos gazenses prefeririam uma Comissão Nacional responsável por essa supervisão. Contudo, é crucial que essa abordagem não consolide a separação entre Gaza e a Cisjordânia, pois um governo unificado é vital para garantir a segurança e a representação legítima.

O Caminho para a Estabilidade

Pesquisas indicam que os palestinos não perderam o interesse em processos políticos, mesmo diante de um cenário de desconfiança para com seus líderes. Eles desejam um sistema que traga resultados e segurança. Para que a reconstrução de Gaza aconteça de forma efetiva, as soluções devem ser baseadas nas necessidades e nas aspirações dos próprios palestinos. A legitimidade da Autoridade Palestina deve ser restaurada respeitando o desejo de autodeterminação da população.

A questão agora é: como a comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos e outras nações, responderão a essa necessidade urgente? A nascença de um novo governo que prioriza o diálogo com os palestinos e a solução de dois Estados poderá abrir caminhos para a paz. Os resultados das próximas eleições em Israel, agendadas para o dia 27 de outubro, podem delinear o futuro das relações nessa região conturbada.

Enquanto a população de Gaza luta para se reerguer, seu desejo de permanecer e colaborar na reconstrução é mais do que uma mera esperança — é uma determinação. O verdadeiro desafio agora é se as lideranças em Israel e em outros países estão dispostas a responder a este chamado e a trabalhar pela paz e estabilidade no Oriente Médio.

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