Kapitalo vê juros altos por tempo indeterminado e amplia posição vendida no Brasil


A Kapitalo Investimentos revisou para baixo suas perspectivas para a economia brasileira após o resultado da eleição presidencial e ampliou a preferência por investimentos no exterior. Segundo Bernardo Feijó, diretor operacional da gestora, o cenário aponta para juros elevados por mais tempo, maior aversão a risco e possibilidade de desaceleração mais intensa da atividade.

Para Feijó, a eleição reduziu a chance de o Banco Central iniciar cortes na taxa básica de juros, a Selic, e aumentou o receio de novas altas. A avaliação foi feita em entrevista concedida antes da discussão sobre a proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, de reduzir a Selic para 7,5% em 12 meses.

Juros altos e risco de recessão

Feijó considera improvável que o Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pelas decisões sobre a Selic, discuta uma redução dos juros no horizonte próximo. Na visão do executivo, a tendência, considerando a trajetória adiante, é que o debate se concentre na possibilidade de novas altas.

Uma eventual queda dos juros, afirmou, poderia ocorrer em circunstâncias adversas, como um colapso da atividade econômica ou questionamentos sobre a independência do Banco Central. Feijó classificou essas possibilidades como riscos extremos, que não integram o cenário principal da Kapitalo, mas que precisam ser considerados.

A gestora também voltou a avaliar a possibilidade de recessão. Feijó relaciona esse risco à reversão da queda das taxas de juros de longo prazo, que influenciam as condições de financiamento e a atividade econômica. Com a economia já em desaceleração e condições financeiras mais apertadas, a recessão pode passar a fazer parte dos cenários considerados, disse.

Esse não é, por enquanto, o cenário-base da Kapitalo. A projeção da casa era de crescimento de cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano seguinte, mas Feijó afirmou que há “altíssima probabilidade” de revisão para baixo, dependendo da intensidade do aperto financeiro.

A desaceleração, porém, não necessariamente abriria espaço para cortes de juros. A expectativa de inflação elevada limita a margem de atuação do Banco Central. Feijó apontou ainda a incerteza sobre a disposição do governo para seguir uma estratégia de estabilização fiscal. Na avaliação dele, a combinação de atividade mais fraca, inflação e dúvidas sobre a política fiscal torna o quadro mais difícil para a economia.

Reação dos mercados e impacto nos fundos

Feijó não conta com uma mudança de postura do governo apenas em resposta à reação negativa dos mercados. Segundo ele, uma eventual revisão da estratégia fiscal poderia ocorrer somente após uma pressão significativa sobre os ativos financeiros, e não há clareza sobre o tamanho da mudança que essa pressão produziria.

O executivo avalia que os prognósticos são desfavoráveis para os prêmios de risco dos ativos brasileiros. Prêmio de risco é a remuneração adicional exigida pelos investidores para aplicar em ativos considerados mais arriscados. A combinação de maior aversão a risco e juros altos também tende a prejudicar a indústria de gestão de recursos, especialmente os fundos multimercados, que investem em diferentes tipos de ativos, e os fundos de ações.

Na avaliação de Feijó, o setor já vinha enfraquecido nos quatro anos anteriores e deve enfrentar um ambiente mais difícil. Ele também não espera que a indicação de um novo ministro da Fazenda, por si só, anime os mercados. Para o executivo, é improvável que a escolha represente uma mudança capaz de afastar as preocupações com a política econômica.

Mais recursos fora do Brasil

A Kapitalo administra R$ 32 bilhões e atua como gestora global desde sua criação, há 17 anos. Os fundos K10, Zeta e Kapa mantêm historicamente entre 70% e 80% dos recursos alocados no exterior. Segundo Feijó, a exposição ao Brasil diminuiu ainda mais após a eleição.

Na parcela de 20% a 30% investida no mercado brasileiro, a gestora passou a dar mais espaço a posições que se beneficiam de uma piora dos ativos do país. Feijó descreveu essa mudança como uma das principais alterações na estratégia após o resultado eleitoral.

Na avaliação do diretor, um país com baixo crescimento, juros elevados e dificuldades fiscais precisa oferecer uma taxa de equilíbrio maior para atrair investidores e financiar sua dívida pública. Esse quadro, afirmou, é negativo para os ativos de risco brasileiros.

O dólar ainda conta com fatores de proteção, segundo Feijó: contas externas saudáveis e reservas internacionais elevadas. Essa situação poderia mudar rapidamente, porém, caso surgissem discussões sobre uma redução forçada dos juros ou sobre a credibilidade da independência do Banco Central. Nessa hipótese, a moeda poderia sofrer forte impacto, alertou.

Interesse internacional permanece

Apesar da preferência por alocações globais, a Kapitalo vê interesse de grandes investidores internacionais em gestores brasileiros. Feijó afirmou que esses alocadores consideram a gestão local de alta qualidade e veem condições mais favoráveis ao investidor do que as oferecidas por fundos de hedge americanos.

O resultado da eleição pode adiar a entrada imediata de recursos no Brasil, mas não elimina, segundo ele, o interesse por gestores capazes de obter retornos acima da média sem depender das condições gerais do mercado. Feijó disse que a Kapitalo continuará buscando oportunidades no exterior quando não encontrar posições claras no país e que sua estratégia não depende de um cenário otimista para gerar resultados.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Recentes

Brasil deve receber proposta dos EUA sobre tarifas até a próxima semana, diz ministro

O governo brasileiro espera receber dos Estados Unidos, entre esta semana e o início da próxima, uma proposta para...

Quem leu, também se interessou