Aos 18 anos, Rian Santos estuda Educação Física e orienta duas cooperativas mirins em Lerroville, área rural de Londrina (PR). A trajetória começou quando, aos 15, ele aceitou o convite de um educador para participar de uma iniciativa do Sicoob Ouro Verde com a Associação Guarda Mirim. O programa transformou a timidez do adolescente em experiência de liderança e gestão coletiva.
Cooperativas atendem demandas locais
Rian foi eleito por unanimidade presidente da Cooper Ville. No cargo, aprendeu a ouvir os participantes e distribuir tarefas. “Mesmo sendo tímido, tenho a capacidade de liderar, consigo tirar dos outros o melhor lado de cada um”, afirma. Depois de um ano, passou a tesoureiro, função que exerceu dos 16 aos 17 anos. Hoje, acompanha as lideranças da Cooper Ville e da Cooper Laços.
As duas organizações escolhem atividades que possam ser realizadas pelos participantes e atendam a necessidades da comunidade. Em Lerroville, a Cooper Laços produz pipocas gourmet, enquanto a Cooper Ville prepara trufas, biscoitos e bolos de pote. Rian observa que muitas crianças da região não têm acesso a esses produtos, por serem mais caros.
Parte do dinheiro obtido com as vendas foi usada para levar cerca de 40 educandos a uma sorveteria. O excedente de doces também costuma ser doado a crianças da comunidade. No programa, esse resultado é chamado de “sobra”, e não de lucro. O valor pode financiar novas produções, passeios ou ações sociais.
Gestão e educação financeira na prática
Para iniciar as atividades, cada cooperado faz um aporte financeiro de acordo com suas possibilidades. O dinheiro ajuda a custear a primeira produção; depois, as vendas sustentam a associação. Empresas parceiras, familiares e o próprio Sicoob fazem encomendas. Produtos elaborados pelos grupos também podem ser servidos em eventos, como coffee breaks.
Os participantes elegem por voto o presidente e os responsáveis pelas áreas financeira e de marketing, além de decidirem qual será o produto ou serviço desenvolvido, chamado pelo programa de objeto de aprendizagem. As cooperativas realizam reuniões mensais e assembleias ordinárias e extraordinárias. Os cooperados também aprendem a redigir estatutos e atas, manter o livro-caixa e preparar ofícios. Um educador supervisiona as atividades.
As cooperativas não têm conta bancária. O dinheiro é guardado em uma caixa com compartimentos destinados a diferentes finalidades, como produção e fundo de reserva. O estatuto determina a divisão dos recursos. Segundo Eliana Gomes dos Santos, da unidade de Desenvolvimento Corporativo do Sicoob Ouro Verde, o valor guardado não pode superar um salário mínimo por mês, para que os grupos continuem investindo nas atividades.
Os mais novos, de até 12 anos, registram as movimentações em um livro-caixa. Os participantes de 13 a 17 anos usam uma planilha de Excel para anotar entradas, saídas e sobras. Para Eliana, o foco não está em vender, mas em ensinar empreendedorismo. “O objetivo não é a venda, mas ensinar a empreender”, diz.
Atuação reúne 273 cooperados em Londrina
O programa Cooperativa Mirim forma associações de estudantes em escolas públicas e privadas, cooperativas educacionais e instituições que atendem crianças e jovens de 8 a 17 anos, sobretudo em situação de vulnerabilidade. A iniciativa é amparada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pela Lei nº 5.764/1971, que define a Política Nacional de Cooperativismo. Entre seus objetivos estão estimular o trabalho em equipe, a sociabilidade, o empreendedorismo e a participação comunitária.
Em Londrina, o Sicoob Ouro Verde coordena oito cooperativas mirins, com 273 cooperados voluntários. Uma delas é a única do país em atividade dentro de uma Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae). No Paraná, o Sicoob mantém mais de 120 cooperativas desse tipo. A instituição ajuda a constituir os grupos, oferece oficinas e treinamentos e acompanha a participação dos cooperados.
“Fazemos as parcerias com as instituições e levamos capacitação sobre o que é cooperativismo. A partir disso, as crianças e os jovens passam a construir uma cooperativa de verdade”, afirma Nancy Ferreira, gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional do Sicoob Ouro Verde.
Cooperativa da Apae reativou padaria
A Mãos que Transformam, criada na Apae de Londrina, completa dois anos em novembro e reúne 17 participantes, de 15 a 40 anos, em uma instituição com 360 estudantes. Todos os cooperados têm deficiência intelectual; alguns também têm deficiências múltiplas, segundo a educadora Marcella Sanches.
O grupo começou a produzir bolachas amanteigadas de goiaba e doce de leite em uma padaria desativada dentro da unidade. A lista de itens passou a incluir broa de fubá, geladinho de coco, cookie de chocolate, mousse de limão com leite Ninho e água de lençol, usada para aromatizar ambientes.
Antes de definir o preço de venda, os participantes consultam folhetos de supermercado, identificam os ingredientes e calculam os custos. O grupo também plantou mudas e arrecadou tampinhas de garrafas PET. A venda do material financiou cestas de Natal para uma residência inclusiva que acolhe pessoas com deficiência sem vínculos familiares.
Marcella afirma que as atividades trabalham educação financeira, autonomia, cidadania e liderança. Mesmo entre alunos que não conseguem escrever uma ata, diz ela, há participação nas decisões e nos encontros. Neste ano, os cooperados decidiram por voto usar parte das sobras para ir a uma churrascaria no fim do ano.

