Os contratos futuros de soja negociados em Chicago caíram mais de 2% nesta segunda-feira (26), enquanto açúcar e café recuaram com força, após a desvalorização do real diante do dólar na esteira dos resultados das eleições no Brasil. A reação refletiu o peso do país, maior produtor das três commodities, nas cotações internacionais e na concorrência com exportadores de outros países.
Real mais fraco pressiona commodities
O real perdeu perto de 12% em relação ao dólar no mercado à vista quando as negociações começaram no Brasil. A bolsa de valores do país interrompeu as operações por meio de um mecanismo automático de segurança, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Como os produtos brasileiros são negociados em mercados internacionais, a desvalorização da moeda pode torná-los mais acessíveis para compradores estrangeiros. Com o dólar mais valorizado em relação ao real, exportadores brasileiros também podem ser estimulados a vender, segundo a dinâmica descrita por operadores do mercado.
Esse movimento aumentou a pressão sobre os preços de produtos agrícolas negociados globalmente. A queda foi mais acentuada no açúcar e também atingiu o café. Na soja, a redução chamou atenção porque os contratos dos Estados Unidos concorrem com os do Brasil no mercado internacional.
Soja dos EUA sente efeito da disputa
Operadores disseram que a mudança de cenário eleitoral foi especialmente negativa para os futuros de soja norte-americanos. Antes do resultado, investidores haviam demonstrado otimismo quando o candidato de direita Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno, realizado no início do mês. Depois da reeleição de Lula, esse otimismo foi revertido.
“Certamente a eleição foi uma surpresa, e isso está ligado à desvalorização da moeda e, consequentemente, à queda nos preços da soja”, afirmou Jack Scoville, vice-presidente e analista de mercado do The Price Futures Group, em Chicago.
Scoville também relacionou a dimensão da queda à pressão indireta sobre o milho. Segundo ele, o movimento nos preços da soja decorreu da surpresa eleitoral e da desvalorização do real, e acabou afetando também a outra commodity.
Por volta das 13h30, no horário de Brasília, o contrato de soja com vencimento em novembro recuava quase 20 centavos de dólar e era negociado a US$ 12,376 por bushel. O bushel é uma unidade de medida usada na negociação de grãos. O valor mostra a cotação do contrato naquele momento, em meio à reação dos investidores às mudanças no câmbio e no cenário político brasileiro.
Açúcar e café também recuam
Os contratos futuros de açúcar bruto negociados na ICE, usados como referência global de preços, caíam mais de 6%. A cotação ficou abaixo de 18 centavos de dólar por libra-peso, unidade usada para expressar o preço da commodity.
O café arábica também registrou perdas. Os futuros negociados na ICE recuavam mais de 2%, para cerca de US$ 3 por libra-peso. Com isso, a cotação se afastou da máxima de seis semanas alcançada na quarta-feira, quando chegou a US$ 3,1820.
As quedas ocorreram em diferentes mercados de commodities, mas com intensidades distintas: o açúcar teve o maior recuo entre os produtos citados, seguido pela soja e pelo café. No caso da soja, além da pressão cambial, os operadores apontaram o efeito sobre a competitividade dos contratos norte-americanos frente à oferta brasileira.