Ibovespa recua 2,7% após terça-feira mais tranquila no mercado


O Ibovespa caiu 2,68% nesta quarta-feira (28), para 171.006,10 pontos, em meio aos ajustes dos investidores após a reeleição de Lula e à incerteza sobre a política fiscal do próximo governo. O índice chegou a recuar mais de 3% durante o pregão, pressionado também por quedas de ações de bancos e pela expectativa em torno de balanços corporativos e dos juros nos Estados Unidos.

Na segunda-feira após a eleição, a Bolsa havia desabado 13,88%, e o circuit breaker — mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas — foi acionado. Na sessão desta quarta, os investidores buscaram sinais sobre a contenção de gastos, a trajetória da dívida pública e a composição da futura equipe econômica.

Incerteza fiscal mantém pressão sobre a Bolsa

Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, avaliou que o mercado continua à procura de indicações mais claras sobre um ajuste fiscal considerado crível. Segundo ele, esses fatores seguem determinantes para a formação dos preços dos ativos brasileiros.

Analistas do Itaú BBA também afirmaram que o Ibovespa ainda não apresenta sinais consistentes de recuperação, apesar da forte correção registrada na segunda-feira. Em relatório, disseram que a estratégia de comprar ações apenas porque elas caíram não se aplica automaticamente ao momento atual e que sinais gráficos podem ajudar a indicar a direção do mercado.

Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, afirmou que os agentes financeiros acompanham a formação da equipe econômica e as perspectivas para a condução das contas públicas a partir do próximo ano. A volatilidade também pode continuar elevada enquanto não houver sinais mais concretos sobre a trajetória fiscal e as prioridades econômicas do próximo governo.

O governo prepara um projeto de lei complementar para permitir, a partir de 2027, o controle dos gastos com o objetivo de alcançar o centro da meta de superávit primário daquele ano: R$ 73,2 bilhões, equivalentes a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Renato Widmer, CIO e gestor da Aurum Wealth Management, disse que uma sinalização fiscal mais concreta poderia acalmar o mercado ou reverter parte das perdas.

Fed mantém juros, mas mercado espera nova alta

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), banco central do país, manteve a taxa básica na faixa entre 3,75% e 4%, como esperado. A decisão não foi unânime: dois dirigentes votaram por uma alta de 0,25 ponto percentual. A instituição também alterou seu cronograma, que passará a ter uma decisão de juros a menos por ano.

A decisão não mudou a expectativa do mercado de uma nova elevação dos juros em dezembro, depois das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para terça-feira (3). Os balanços de Microsoft e Alphabet também estavam no radar de investidores, por sua influência sobre o humor global nos setores de tecnologia, inteligência artificial e computação em nuvem.

Para o mercado brasileiro, porém, analistas apontaram maior peso dos fatores domésticos. Araújo afirmou que as dúvidas fiscais, a indefinição sobre a equipe econômica e a expectativa em torno do Fed mantêm a volatilidade elevada e limitam a força de uma eventual recuperação.

Ações de bancos lideram perdas

As ações de bancos estiveram entre as principais pressões sobre o índice. O Santander Brasil recuou 5,88% após divulgar queda de 28% no lucro líquido recorrente do terceiro trimestre, na comparação anual, com piora na rentabilidade e aumento das provisões. O presidente-executivo do banco, Gilson Finkelsztain, disse que a instituição trabalhará para melhorar a rentabilidade e destacou o nível elevado dos juros como parte de um cenário macroeconômico desafiador.

Bradesco PN caiu 6,68%. O Itaú BBA reduziu a recomendação para os papéis para “market perform” e cortou o preço-alvo de R$ 22 para R$ 20. Itaú Unibanco PN recuou 3,42%, Banco do Brasil ON perdeu 3,39% e BTG Pactual Unit caiu 6,52%.

Vale ON cedeu 2,57%, mesmo com alta de 1,05% dos contratos futuros de minério de ferro na Bolsa de Mercadorias de Dalian, na China. A mineradora divulgaria o balanço do terceiro trimestre na quinta-feira, após o fechamento do mercado. Petrobras PN caiu 0,53%, apesar da alta de 1% do petróleo Brent, que fechou a US$ 115,32 o barril. O Citi elevou o preço-alvo das ações preferenciais da estatal de R$ 47 para R$ 56, mas manteve recomendação neutra devido a incertezas sobre a alocação de capital.

Klabin recuou 6,37% após registrar queda de 18% no lucro líquido trimestral. A empresa relacionou o desempenho a custos de medidas contra os efeitos do El Niño, à valorização do real e a despesas maiores com insumos e fretes. Já Hypera subiu 1,35% após divulgar alta de 16% no lucro líquido do terceiro trimestre e anunciar recompra de ações. O presidente-executivo, Breno de Oliveira, afirmou que as vendas da caneta emagrecedora Semavy em outubro estavam praticamente o dobro das 94 mil unidades comercializadas por farmácias em setembro.

Tributação de títulos entra no radar

Investidores também acompanharam relatos de que a equipe econômica estuda cobrar Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre títulos hoje isentos de Imposto de Renda, como LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas. A alíquota de IOF para essas aplicações é atualmente zero.

Luciano França, sócio-fundador e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde, afirmou que a possibilidade de tributação prejudica o crédito privado e pode afetar investidores e empresas que captam recursos por meio desses títulos, especialmente nos setores imobiliário e de infraestrutura. França observou que Petrobras recuou pouco em comparação com os bancos e ajudou a limitar as perdas do índice.

No campo político, Flávio Bolsonaro desembarcou em Miami nesta quarta-feira em uma aeronave particular, segundo imagens da Reuters TV. O senador viajou depois de descumprir decisão judicial que determinava a entrega de seus passaportes. Analistas do Citi apontaram que o episódio reduz quase a zero as chances de contestação ou reversão do resultado eleitoral, enfraquece o protagonismo da família Bolsonaro na direita e diminui a probabilidade de novas manifestações contra o desfecho da eleição.

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