Investidores podem receber dividendos de ações no exterior por corretoras internacionais


A valorização de ativos nos Estados Unidos e a alta do dólar podem ampliar o retorno de brasileiros que investem no exterior, tanto pelo desempenho dos investimentos quanto pela conversão para reais. Além da busca por valorização, fundos negociados em bolsa, conhecidos pela sigla ETF, podem oferecer distribuições periódicas por meio de estratégias com derivativos, mesmo quando os ativos não pagam dividendos tradicionais.

Nesse modelo, os valores distribuídos não vêm diretamente das empresas ou de outros ativos da carteira. Os fundos realizam operações financeiras para obter receitas, que podem ser repassadas aos cotistas. A distribuição, porém, varia conforme as condições do mercado e não equivale a uma rentabilidade garantida.

O efeito do dólar no retorno

O resultado de um investimento internacional depende de dois fatores: o desempenho do ativo em sua moeda de origem e a variação cambial. Se o dólar sobe em relação ao real, o valor convertido para a moeda brasileira pode aumentar. Se a moeda americana cai, o câmbio pode reduzir o retorno em reais, mesmo quando o ativo se valoriza em dólar.

“Se o dólar sobe, o ETF também vai subir de acordo com essa valorização do dólar, e a mesma coisa no inverso”, afirma Renato Nobile, CEO da Buena Vista Capital.

O executivo cita o SPYI11, ligado ao índice S&P 500, como um fundo com exposição integral ao dólar. Já o GDIV11 reúne empresas de diferentes mercados e, por isso, pode ter exposição a outras moedas além da americana. “Ele tem parte da sua exposição em empresas americanas dolarizadas e outras empresas ao redor do mundo com as suas respectivas moedas”, diz Nobile.

Essa diferença pode influenciar o resultado do investimento: fundos concentrados em ativos americanos tendem a refletir a variação do dólar, enquanto carteiras globais podem combinar efeitos cambiais de vários países. A exposição a moedas estrangeiras, portanto, é parte do risco e do potencial de retorno.

Como funcionam os dividendos sintéticos

Os chamados dividendos sintéticos são receitas obtidas por meio de operações com derivativos, e não pagamentos feitos pelas empresas aos acionistas. Nos ETFs da Buena Vista Capital, a estratégia envolve vender opções de compra relacionadas aos ativos da carteira. Em troca dos contratos, o fundo recebe prêmios que podem ser distribuídos aos cotistas.

“Os dividendos sintéticos são chamados assim porque não vêm diretamente das empresas, mas de uma estratégia com derivativos”, afirma Nobile.

Uma opção de compra é um contrato ligado à possibilidade de adquirir um ativo por determinadas condições. Ao vender esse tipo de opção, o fundo recebe um prêmio, mas pode limitar parte do potencial de valorização do investimento. Assim, a renda distribuída deve ser avaliada junto com o desempenho do patrimônio, e não isoladamente.

A estratégia pode ser usada em ativos cujas empresas pagam poucos dividendos. Segundo Nobile, os dividendos tradicionais das companhias do Nasdaq-100 ficam em torno de 0,7% ao ano. O QQQQ11, ligado ao índice, busca ampliar o potencial de distribuição por meio de opções. “Além de ter exposição às empresas do Nasdaq-100, você tem um dividendo na casa de 14% ao ano”, afirma o executivo. O percentual é uma referência de potencial de distribuição, não uma promessa de retorno, e pode variar com o mercado.

O mecanismo também pode gerar receitas em ativos que não pagam dividendos, como o ouro. Nesse caso, os recursos vêm das operações com opções relacionadas ao futuro do metal, e não do ativo em si. “Conseguimos estar expostos ao ouro e utilizar opções sobre o futuro do ouro para pagar dividendos”, diz Nobile.

Produtos e riscos a considerar

A Buena Vista Capital oferece fundos com estratégias de dividendos sintéticos ligados a diferentes classes de ativos. Entre os exemplos citados estão o SPYI11, associado ao S&P 500; o QQQQ11, ligado ao Nasdaq-100; o COIN11, exposto ao Bitcoin; e o CASA11, voltado ao mercado imobiliário americano.

De acordo com Nobile, o SPYI11 tem distribuições médias próximas de 1% ao mês, enquanto o COIN11 pode superar 2% ao mês em determinados períodos. Esses números não são fixos: as receitas dependem das condições do mercado e da volatilidade implícita das opções, uma medida das oscilações esperadas pelos participantes. Ativos mais voláteis podem gerar prêmios maiores, mas também envolvem riscos mais elevados.

Na avaliação do executivo, a escolha do fundo deve levar em conta a classe de ativos desejada e o nível de renda pretendido. A exposição ao S&P 500 é diferente daquela associada ao Bitcoin, que está sujeita a oscilações mais intensas. Também é necessário considerar que a venda de opções pode restringir parte dos ganhos se o ativo subir.

Para o investidor, as distribuições periódicas não devem ser confundidas com retorno total. A análise precisa incluir a evolução do valor do fundo, o risco cambial, a volatilidade dos ativos e o efeito da estratégia com derivativos. O percentual pago em determinado período, por si só, não informa se o patrimônio se valorizou ou se manteve.

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