Desemprego a 5,2%, menor em 14 anos, sustenta consumo e pressiona Selic


A taxa de desemprego caiu para 5,2% no trimestre encerrado em setembro, o menor nível para esse período desde o início da série histórica, em 2012. O dado foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 30 de outubro, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua. A melhora sustenta a renda e o consumo das famílias, mas aumenta a preocupação de analistas com a inflação de serviços e limita o espaço para cortes mais rápidos da taxa Selic.

No segundo trimestre, a desocupação estava em 5,4%; no mesmo período do ano anterior, em 5,6%. A combinação de desemprego baixo, mais pessoas ocupadas e aumento dos rendimentos mantém o mercado de trabalho aquecido. Para economistas e instituições financeiras, porém, a força da atividade também pode elevar custos e dificultar a redução dos preços, sobretudo em serviços.

Renda dá suporte ao consumo

O economista Leandro Padulla, do ASA, afirma que o rendimento efetivo real avançou 1,7% no trimestre e a massa de rendimentos cresceu 2%. A massa salarial corresponde ao total recebido pelos trabalhadores. Segundo ele, os resultados interrompem a percepção de uma perda mais persistente de dinamismo da renda e indicam que o mercado de trabalho ainda tende a sustentar o consumo das famílias.

A consultoria 4Intelligence também aponta que os rendimentos médios tiveram o quarto aumento consecutivo acima da inflação. A empresa projeta que a massa de ganhos permaneça em patamar elevado, apoiada pela política de valorização do salário mínimo e pelas negociações sindicais.

Esse avanço da renda favorece a capacidade de consumo, enquanto o aumento da ocupação reforça a atividade econômica. O efeito, no entanto, não é visto apenas como positivo pelos analistas: quando há menos trabalhadores disponíveis, a disputa por mão de obra pode pressionar salários e custos das empresas.

Mercado aquecido limita cortes de juros

O principal ponto de atenção está nos preços de serviços. A escassez de trabalhadores pode elevar os salários e os custos das empresas prestadoras de serviços, que podem repassá-los aos consumidores. Esse mecanismo dificulta o controle da inflação e reduz a margem para o Banco Central acelerar os cortes da Selic, a taxa básica de juros da economia.

André Matos, CEO da MA7 Capital, diz que um mercado de trabalho apertado mantém a pressão sobre os salários e sobre a inflação de serviços, que, em sua avaliação, é a parte mais difícil de reduzir. A preocupação é que o avanço dos custos persista mesmo com a política monetária em ciclo de cortes.

Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, avalia que o país entrará no próximo ano com uma base firme, mas cada vez mais dependente de tecnologia e eficiência. Para ele, a disponibilidade menor de trabalhadores pode levar a atividade a elevar salários e pressionar os preços dos serviços se a produção não acompanhar a demanda.

Projeções indicam perda gradual de ritmo

Apesar do resultado recorde para o trimestre, economistas avaliam que há sinais de desaceleração na abertura de vagas. A leitura é de que a economia perde ritmo e de que há menos espaço para novas contratações. A consultoria 4Intelligence observa que a taxa de participação na força de trabalho está estagnada em 62,2% e não deve voltar ao nível anterior à pandemia. A empresa associa a tendência de mais pessoas fora da força de trabalho ao envelhecimento da população brasileira e à menor participação esperada nas próximas décadas.

Rodolfo Margato, economista da XP, cita serviços domésticos e indústria de transformação entre os segmentos que já registram redução na abertura de vagas em comparação anual. A XP projeta que a taxa de desemprego chegue a 5,4% no fim de 2026 e a 6,5% no fim de 2027, em um cenário de esfriamento da economia.

André Valério, economista sênior do Inter, aponta estabilidade da renda habitual e da taxa de informalidade, em 37,5%. Na avaliação dele, o mercado de trabalho está próximo do pico e tem pouco espaço para continuar melhorando. Os dados da 4Intelligence mostram ritmos diferentes entre os tipos de ocupação: o emprego formal cresceu 1,8% na comparação anual, enquanto o informal avançou 0,2%. A XP registrou queda mensal de 0,1% no emprego informal, em contraste com alta entre trabalhadores formais.

António Ricciardi, do Banco Daycoval, afirma que a taxa de desocupação com ajuste sazonal permanece em torno de 5,4% desde o início do ano. Para ele, o dado é compatível com uma perda gradual de dinamismo do mercado de trabalho à medida que o custo elevado do crédito pese mais sobre o caixa das empresas.

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