O Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4), decisão criticada por federações da indústria, que apontam juros altos como obstáculo ao crédito, aos investimentos e à atividade econômica. A FecomercioSP, por outro lado, considerou prudente interromper os cortes diante da piora das expectativas de inflação e das incertezas fiscais e cambiais.
Indústria cobra retomada dos cortes
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que a manutenção do aperto monetário prolonga o custo elevado do crédito para empresas e famílias e dificulta a retomada da economia. Em nota, o presidente da entidade, Ricardo Alban, pediu que o Comitê de Política Monetária (Copom) volte a reduzir os juros na próxima reunião, prevista para dezembro.
Alban reconheceu que as expectativas de inflação pioraram, mas argumentou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) permanece dentro do intervalo da meta no horizonte relevante da política monetária. Para ele, seria possível continuar reduzindo a Selic em ritmo compatível com a convergência da inflação para a meta, sem impor à economia um custo maior do que o necessário para manter a estabilidade dos preços.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também criticou a decisão. Em nota assinada pelo presidente Paulo Skaf, a entidade classificou o aperto monetário como desmedido e disse que a taxa básica está em nível aproximadamente três vezes superior ao da inflação corrente.
Skaf afirmou que os juros afetam tanto a produção quanto o consumo. Segundo ele, o crédito bancário tomado por empresas e empreendedores, com taxas na casa dos 30% ao ano, inviabiliza investimentos. O presidente da Fiesp acrescentou que o endividamento de famílias e empresas se agrava a cada mês e que o serviço da dívida pública custa mais de R$ 1 trilhão por ano. A entidade defendeu uma readequação das políticas monetária e fiscal para reduzir a Selic e recuperar a competitividade da economia.
Federações apontam custos para a indústria
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) afirmou que a permanência dos juros em patamar elevado prolonga os custos para o setor produtivo e dificulta a retomada dos investimentos. Na avaliação da entidade, essa situação compromete a competitividade da indústria brasileira.
Assim como a Fiesp, a Fiemg relacionou a pressão sobre a inflação e as restrições à queda dos juros à falta de coordenação mais efetiva entre as políticas fiscal e monetária. O presidente da federação mineira, Flávio Roscoe, disse que a inconsistência na condução fiscal impõe custos à economia. Com juros elevados por mais tempo, afirmou, o crédito fica mais caro, investimentos são adiados e a indústria perde capacidade de crescer e competir. Roscoe também defendeu responsabilidade fiscal e sinais claros de compromisso com o equilíbrio das contas públicas.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) avaliou que a manutenção da Selic posterga o alívio necessário para a atividade econômica. A entidade citou indicadores que, segundo ela, mostram baixo dinamismo industrial e retração na confiança empresarial.
Em nota, a Firjan afirmou que os encargos financeiros elevados inibem investimentos e reduzem a capacidade competitiva das empresas. O impacto seria especialmente relevante para a indústria de transformação, que, de acordo com a federação, acumula queda de 0,1% no ano. A entidade também apontou a falta de avanços consistentes em reformas estruturais e a pouca convergência entre as políticas fiscal e monetária como fatores que mantêm alta a percepção de risco e as incertezas macroeconômicas.
A federação fluminense defendeu um compromisso fiscal sólido para o próximo mandato. Para a entidade, o reequilíbrio das contas públicas e a melhoria do ambiente de negócios são condições para retomar os cortes de juros, estimular investimentos e apoiar a recuperação da indústria.
FecomercioSP vê prudência na decisão
Em sentido diferente das federações industriais, a FecomercioSP havia defendido a manutenção da Selic antes da decisão. A entidade citou incertezas fiscais, pressão cambial e piora das expectativas de inflação para justificar a interrupção do ciclo de flexibilização monetária.
A federação afirmou que juros menores são desejáveis para estimular a atividade, favorecer investimentos e reduzir o custo do crédito, mas avaliou que o cenário atual não oferece segurança para novos cortes. Segundo a FecomercioSP, uma redução adicional de 0,25 ponto percentual teria efeito limitado sobre a atividade e poderia ser interpretada pelo mercado como maior tolerância aos riscos inflacionários. Na avaliação da entidade, isso poderia pressionar ainda mais o câmbio e os juros de longo prazo, que influenciam parte relevante do custo dos financiamentos para empresas e famílias.

