O Banco Central deve manter a taxa Selic em 13,75% até o fim de 2026, sem retomar os cortes nem iniciar uma alta, segundo Arnaldo Lima, economista da Polo Capital. A pausa reflete a piora das expectativas de inflação e a avaliação de que riscos externos e incertezas fiscais ainda limitam o espaço para reduzir os juros. Lima projeta que esses fatores percam força ao longo de 2027, quando a taxa poderia chegar a 12%.
Expectativas de inflação pesam na decisão
Em entrevista, Lima afirmou que a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), colegiado do Banco Central responsável por definir a taxa básica de juros, foi motivada principalmente pela deterioração das projeções inflacionárias. Segundo ele, a inflação vinha se acomodando até a reunião anterior, mas a tendência se inverteu: medidas que acompanham componentes persistentes dos preços voltaram a acelerar e ficaram acima do teto da meta.
“Foi uma sinalização de pausa sem qualquer pista de elevação, mas sobretudo por conta da desancoragem das expectativas”, disse o economista. Expectativas desancoradas são projeções de inflação que se afastam da meta e podem dificultar o trabalho do Banco Central para conter os preços.
A desaceleração da atividade econômica e a resiliência do mercado de trabalho também fazem parte do cenário, mas, na avaliação de Lima, pesaram menos na decisão do que a piora das expectativas. Ele considera a política monetária atual bastante restritiva: os juros estão em nível elevado e o juro real — a taxa descontada a inflação — supera o patamar que não estimularia nem frearia a economia.
Apesar disso, o economista não vê espaço para cortes no curto prazo. “Enquanto a gente não vê uma acomodação, é difícil ver um cenário de redução de juros para o ano que vem”, afirmou. A previsão de estabilidade até o fim deste ano não inclui, portanto, uma nova alta da Selic. Para que os cortes voltem, será necessário observar uma melhora no quadro inflacionário.
Riscos externos ampliam a cautela
O cenário internacional também ganhou peso na comunicação do Banco Central, que passou a descrevê-lo como “mais adverso”, em vez de apenas “incerto”. Lima relaciona a mudança aos choques de oferta causados por conflitos no Oriente Médio e por fenômenos climáticos, como o El Niño.
Esses choques podem afetar a inflação para além do impacto inicial, por meio dos chamados efeitos de segunda ordem. Isso ocorre quando uma alta de preços se espalha para outros itens ou influencia reajustes e expectativas. Por essa razão, segundo Lima, o Banco Central acompanha os dados e não considera apenas oscilações de curto prazo: também avalia o risco de a inflação persistir.
Na visão do economista, os países emergentes terão mais condições de retomar cortes de juros quando os choques externos perderem força e as taxas globais recuarem. Lima estima que o cenário adverso deve se dissipar ao longo de 2027. Nesse quadro, a Selic poderia chegar a 12%, nível que ele aponta como taxa terminal — a taxa prevista ao fim do ciclo de política monetária.
Credibilidade do BC e meta de inflação
A pausa nos cortes também reforça, na avaliação de Lima, a credibilidade institucional do Banco Central diante de pressões políticas. Questionado sobre propostas de alteração do modelo do Copom ou de mudança da meta de inflação, atualmente em 3%, o economista considerou essas possibilidades “muito pouco prováveis”.
Para ele, alterar a meta neste momento poderia elevar a desconfiança do mercado e exigir um esforço fiscal maior do governo. Lima também afirmou que a autoridade monetária atua de forma independente dos ciclos eleitorais e das indicações políticas. “O CNPJ do Banco Central fala muito mais alto que o CPF dos diretores indicados”, disse.
Ajuste fiscal entra no centro do debate
O economista avalia que a discussão sobre política fiscal mudou de lugar no mercado. Na transição para o terceiro mandato do governo Lula, havia confiança na condução fiscal, associada às discussões sobre o arcabouço, enquanto a política monetária gerava dúvidas. Agora, segundo ele, a percepção se inverteu: “O mercado está entrando comprado pela decisão de hoje na política monetária e com dúvidas sobre a política fiscal”.
Para reduzir os juros reais a um nível compatível com o desenvolvimento econômico, Lima defende uma revisão dos gastos públicos. As despesas obrigatórias, afirmou, consomem mais de 90% do orçamento. Uma das alternativas seria aperfeiçoar políticas sociais e padronizar critérios de acesso a benefícios. Ele citou a unificação de programas sociais no Bolsa Família como exemplo de organização de regras que preservou a proteção social.
Essa revisão poderia gerar economia fiscal e ajudar a lidar com o passivo de precatórios associado às regras atuais, avaliou Lima. O economista também apontou que temas politicamente difíceis devem voltar ao debate, entre eles a limitação do Fundeb, fundo destinado à educação básica, a desvinculação dos pisos de gastos com saúde e educação e medidas de arrecadação, como a taxação de fundos isentos.

