A renúncia do presidente paraguaio Santiago Peña, em 5 de novembro de 2026, expôs uma crise bancária envolvendo o Ueno Bank e levantou comparações com o caso do Banco Master, no Brasil. As duas situações têm em comum suspeitas de operações em benefício dos controladores, rombos bilionários e uso de recursos públicos e de fundos previdenciários de trabalhadores.
Empréstimos e créditos sob suspeita
As investigações apontam que o Ueno Bank concedeu cerca de US$ 40 milhões em empréstimos a empresas do Grupo Vázquez, controlador da instituição. As operações coincidiram com a entrada de depósitos públicos no banco. Essa sequência colocou em foco a relação entre a instituição financeira, seus donos e o dinheiro mantido em suas contas.
No Brasil, a comparação envolve a venda de carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). Parte dos ativos negociados seria formada por títulos sem lastro, segundo as informações da reportagem. Esses documentos representariam valores que não existiriam de fato. Empresas de fachada teriam sido usadas para inflar os números do Master e permitir a circulação desses créditos.
Embora os casos ocorram em países diferentes e envolvam operações distintas, o ponto de aproximação está nas suspeitas de que os bancos tenham sido usados em benefício de seus controladores. No Paraguai, o foco recai sobre empréstimos a empresas ligadas ao grupo que controla o Ueno Bank. No Brasil, a investigação descrita envolve créditos vendidos ao BRB e títulos cuja existência ou cobertura financeira é questionada.
Recursos públicos e fundos de trabalhadores
As duas crises também são associadas ao uso indevido de recursos públicos e de fundos previdenciários de trabalhadores. No caso paraguaio, a reportagem destaca a coincidência entre a entrada de depósitos públicos e os empréstimos concedidos a empresas do Grupo Vázquez. No caso brasileiro, o destaque está na negociação de carteiras de crédito e na suspeita de que parte dos títulos não tivesse lastro.
As informações disponíveis não detalham quanto dos recursos públicos ou previdenciários estaria comprometido em cada país. Também não apresentam um valor total para as perdas atribuídas às operações. O que apontam é que os casos envolvem suspeitas sobre a qualidade dos ativos e sobre relações entre instituições financeiras e seus controladores.
Créditos sem lastro podem inflar os números apresentados por uma instituição porque aparecem como valores a receber, embora não correspondam a dinheiro efetivamente disponível. A reportagem relaciona esse mecanismo à circulação de créditos considerados problemáticos no caso do Master. No Paraguai, o dado apresentado é o volume de empréstimos do Ueno Bank a empresas do grupo controlador.
Exposição de brasileiros no Paraguai
A crise também preocupa investidores brasileiros com negócios no país vizinho. O Brasil é apontado como o maior investidor estrangeiro no Paraguai, com cerca de R$ 12 bilhões aplicados. Além disso, milhares de brasileiros vivem ou trabalham no país e podem ter economias depositadas no Ueno Bank.
A instituição tinha contas de quase metade da população paraguaia, segundo as informações apresentadas. Esse alcance amplia o número de pessoas potencialmente afetadas por dificuldades relacionadas ao banco, embora a reportagem não informe quantos correntistas brasileiros mantêm recursos na instituição nem quanto dinheiro poderia estar retido.
Para quem tem depósitos, a possibilidade de recuperação depende, entre outros fatores mencionados na reportagem, dos limites dos fundos garantidores. A cobertura indicada é de cerca de R$ 200 mil no Paraguai e de R$ 250 mil no Brasil. Esses valores delimitam a proteção prevista para os depósitos, mas não significam que todos os recursos acima dos limites serão necessariamente perdidos.
Limites de cobertura e recuperação
Quem aplicou quantias superiores aos limites de garantia pode ter de recorrer à Justiça para tentar recuperar o excedente. Nesse cenário, os credores enfrentam uma fila judicial e incerteza sobre a restituição do patrimônio. A reportagem não apresenta prazos para esse processo nem estima quanto poderia ser recuperado pelos clientes do Ueno Bank.
O paralelo com o Banco Master serve, assim, para destacar riscos ligados a operações com empresas relacionadas aos controladores, a ativos cuja validade é questionada e à exposição de recursos de clientes e instituições públicas. Para brasileiros com dinheiro ou investimentos no Paraguai, os dados disponíveis indicam possíveis impactos, mas não permitem calcular perdas individuais ou a extensão final da crise.

