Alívio no crédito no Brasil deve chegar em ritmos diferentes


O crédito no Brasil continua caro e seletivo, apesar da redução dos juros médios em algumas modalidades. Dados de agosto de 2026 mostram que o saldo de empréstimos cresceu, mas os atrasos também avançaram, um quadro que afeta consumidores, empresas e o mercado automotivo. A queda da taxa básica de juros, por si só, não garante que mais clientes consigam financiamento ou paguem prestações menores.

Juros menores não garantem acesso

O custo de um empréstimo depende de mais fatores do que a taxa básica de juros, a Selic. Os bancos consideram quanto pagam para captar recursos, o risco de inadimplência, despesas, tributos e a margem da operação. Por isso, mesmo quando a Selic recua, as instituições podem manter critérios rigorosos de aprovação, exigir uma entrada maior ou cobrar taxas elevadas de clientes considerados mais arriscados.

A taxa média também pode cair sem que o acesso ao crédito melhore para todos. Isso ocorre quando os bancos aprovam proporcionalmente mais operações para clientes com menor risco. Para as demais famílias, o financiamento pode continuar difícil ou caro. Quem já destina uma parte importante da renda ao pagamento de dívidas tende a adiar compras, enquanto empresas que enfrentam custos elevados para financiar o capital de giro podem postergar investimentos.

A situação fiscal e a inflação influenciam o custo do dinheiro e o orçamento das famílias. Mas mudanças políticas ou resultados eleitorais não recompõem imediatamente a renda de quem já está endividado. A capacidade de dar uma entrada e arcar com as prestações continua determinando, na prática, se uma compra financiada cabe no orçamento.

Crédito cresce junto com os atrasos

Segundo o Banco Central, o saldo de crédito no sistema financeiro aumentou 9,2% em termos nominais nos 12 meses até agosto de 2026. No mesmo mês, a inadimplência das pessoas físicas nas operações de crédito livre chegou a 8%. Os números indicam que a expansão dos empréstimos ocorre ao mesmo tempo que aumentam os atrasos.

Dados do Banco Central compilados pela Evolution e apresentados por Rodnei Souza no MegaForum Automotivo de outubro mostram tendências distintas no financiamento de veículos. Em agosto, os juros médios para a compra de automóveis por pessoas físicas eram de 26,42% ao ano, abaixo dos 27,54% registrados um ano antes. Já a inadimplência nessa carteira subiu de 5,69% em janeiro para 6,57% em agosto.

Nos atrasos de 15 a 90 dias, o índice das pessoas físicas passou de 6,65% para 6,85% entre janeiro e agosto. Para as pessoas jurídicas, recuou de 5,65% para 5,51% no mesmo período. A diferença de direção não basta para afirmar que as dificuldades das empresas terminaram: renegociações e alterações na composição das carteiras também podem afetar os percentuais.

O impacto nas vendas de veículos

Uma simulação ajuda a dimensionar o efeito das taxas sobre as parcelas. Para R$ 60 mil financiados em 48 prestações fixas, uma taxa de 2% ao mês resulta em uma parcela aproximada de R$ 1.956. Com juros de 1,5% ao mês, o valor cai para cerca de R$ 1.762, uma diferença de R$ 194 mensais. O cálculo é arredondado, não inclui tarifas, impostos ou seguros e não representa uma oferta disponível no mercado.

Mesmo com a redução, a prestação pode pesar no orçamento de uma família já endividada. Quando o financiamento não é aprovado, o veículo permanece no estoque da concessionária. O lojista segue arcando com o custo do capital parado e pode recorrer a descontos para vender, o que pressiona a margem da operação.

Um carro usado de menor preço pode diminuir o valor a financiar, mas a idade do veículo e o perfil do comprador também influenciam a aprovação. Na troca, a desvalorização do automóvel usado pode reduzir a entrada disponível para a compra seguinte. Descontos expressivos em carros novos também podem pressionar a avaliação dos usados.

Locadoras enfrentam uma combinação semelhante: precisam equilibrar o custo da dívida, a receita com aluguéis e o preço de venda dos seminovos. Montadoras podem oferecer taxas subsidiadas para estimular as vendas, mas a condição deve ser analisada junto com o valor da entrada, o prazo e o preço efetivo do veículo.

Recuperação deve ser gradual e desigual

Uma melhora mais consistente do crédito depende de inflação menor, confiança na trajetória das contas públicas e redução das perdas nas carteiras dos bancos. Se houver pressão fiscal, cambial ou inflacionária, o dinheiro pode continuar caro e as instituições, mais cautelosas. As escolhas de cada governo influenciam esse cenário, mas não eliminam os limites de renda e endividamento dos consumidores.

As condições mais favoráveis tendem a chegar primeiro a clientes com renda comprovada, entrada maior e menos dívidas. Empresas com caixa, estoque ajustado à procura e acesso a financiamento competitivo também ficam em posição mais confortável. No sentido oposto, famílias com grande parte da renda comprometida e negócios pressionados por dívidas caras enfrentam maior dificuldade.

Para avaliar a evolução do mercado, não basta acompanhar a Selic e os juros futuros. Também importa observar o custo efetivo total (CET), que reúne os encargos do financiamento, o tamanho da entrada exigida e a proporção de propostas aprovadas. Atrasos de 15 a 90 dias e superiores a 90 dias, separados entre pessoas físicas e jurídicas, ajudam a medir o risco de crédito. Renda, comprometimento das famílias, dias de estoque e descontos nas lojas completam o quadro.

Para empresas e investidores, o crescimento da receita precisa ser comparado com a geração de caixa, as despesas financeiras e as perdas de crédito. No varejo automotivo, uma redução de juros pode ajudar a fechar vendas, mas a recuperação depende também de financiamento aprovado e de prestações que o cliente consiga pagar em dia.

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