O Morgan Stanley avalia que as ações do Bradesco foram penalizadas em excesso após a eleição presidencial e manteve recomendação equivalente à compra para os recibos negociados nos Estados Unidos. Em relatório divulgado nesta semana, o banco afirmou que a queda de 37% desde o segundo turno abriu uma oportunidade de investimento, apesar das dificuldades previstas para o setor financeiro brasileiro. O preço-alvo do ADR, porém, foi reduzido de US$ 5,50 para US$ 4,75.
Queda e desconto em relação ao Itaú
A recomendação do Morgan Stanley contrasta com avaliações recentes de outras instituições. Citi, JPMorgan e Itaú BBA rebaixaram suas recomendações para o Bradesco após a eleição, citando preocupações com a situação fiscal, os juros elevados e as perspectivas para os bancos brasileiros.
O Morgan Stanley reconhece que o cenário macroeconômico ficou mais desafiador, mas considera que a intensidade da queda das ações parece maior do que a justificável pelos fundamentos da instituição. Para os analistas, parte relevante dos riscos já está refletida nos preços dos papéis.
Um dos indicadores usados no relatório é a relação entre o preço da ação e o valor patrimonial do banco. O Bradesco negocia a 0,7 vez esse valor, patamar próximo do menor nível observado na última década. O valor patrimonial representa os recursos próprios da companhia registrados em seu balanço.
O banco também apresenta retorno sobre patrimônio, ou ROE, de 16,6%. O indicador mede a rentabilidade obtida sobre o capital próprio. Na avaliação do Morgan Stanley, esse nível de retorno historicamente seria compatível com múltiplos de negociação mais altos do que o atual.
O desconto em relação ao Itaú Unibanco também atingiu um nível recorde em dez anos. Considerando a relação entre preço e valor patrimonial, o Bradesco está 62% abaixo do rival. O Morgan Stanley avalia que essa diferença é grande diante da distância entre os níveis de rentabilidade das duas instituições.
Referência à crise de 2015 e 2016
Para sustentar que o mercado pode estar incorporando um cenário excessivamente pessimista, os analistas compararam a cotação atual com o período de 2015 e 2016. Naquela época, o Brasil enfrentava uma recessão e uma crise política que culminou no impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Mesmo sob condições adversas, o Bradesco chegou a negociar perto de uma vez seu valor patrimonial, acima das atuais 0,7 vez.
A comparação não elimina os riscos que o banco reconhece para o momento atual. O relatório menciona a possibilidade de atividade econômica mais fraca, aumento da inadimplência e incertezas fiscais. Esses fatores podem pressionar os resultados das instituições financeiras e ajudam a explicar a cautela de outros bancos de investimento.
O preço-alvo para o ADR do Bradesco foi cortado de US$ 5,50 para US$ 4,75. Ainda assim, segundo o relatório, o novo valor representa potencial de alta de 85% em relação ao último fechamento. O Morgan Stanley manteve a recomendação de exposição acima da média do mercado, classificação conhecida como “overweight”.
Eficiência e mudanças na carteira
Além da avaliação das ações, o Morgan Stanley destacou mudanças operacionais em andamento no Bradesco. A digitalização dos serviços, o fechamento de agências e iniciativas para elevar a eficiência devem continuar contribuindo para a redução de custos nos próximos anos, segundo os analistas.
O banco também vem tornando a carteira de crédito mais conservadora, com maior participação de modalidades garantidas. Entre elas estão o crédito consignado, o financiamento imobiliário e o financiamento de veículos. Essas linhas têm garantias associadas às operações, característica que, na avaliação do Morgan Stanley, pode ajudar a proteger os resultados em um período de desaceleração.
O relatório argumenta que a combinação de redução de custos e mudanças na composição do crédito pode dar suporte aos resultados, embora não neutralize os riscos econômicos. Para investidores, a tese do banco depende de o preço atual já incorporar boa parte das preocupações com o ambiente fiscal, os juros, a atividade e a inadimplência. O Morgan Stanley considera atrativa a relação entre risco e retorno para quem estiver disposto a enfrentar a volatilidade no curto prazo.