Eleito senador por Alagoas com 948.703 votos, Arthur Lira (PP) inicia um mandato de oito anos e tenta transferir para o Senado a influência que exerceu na Câmara dos Deputados. Em outubro de 2026, o ex-presidente da Câmara já participava de articulações sobre a disputa pela Presidência do Senado e sobre a atuação da direita no novo cenário político.
No dia 14 de outubro, Lira esteve no gabinete do senador Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, acompanhado da senadora Tereza Cristina (PP). Na reunião, aconselhou a direita na disputa pelo Palácio do Planalto e apoiou Tereza para presidir o Senado em 2027.
Na semana anterior, Lira havia declarado apoio público a Flávio, depois de evitar anunciar seu voto no primeiro turno. “O Brasil precisa de um novo caminho”, escreveu. A posição veio após a Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, também se alinhar à candidatura. Com a derrota da direita, o Centrão se aproximou rapidamente do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Disputa pelo comando do Senado
Lira afirmou, logo após a eleição, que não pensava em disputar a Presidência do Senado. Ainda assim, as articulações em curso indicam que aliados discutem um arranjo futuro: Tereza Cristina poderia ocupar o cargo no primeiro biênio, seguida pelo alagoano. A hipótese depende de negociações e não está definida.
Rogério Marinho é apontado como o nome mais forte da direita para a Presidência da Casa. Ele busca reunir senadores desse campo e da centro-direita para enfrentar a tentativa de Davi Alcolumbre (União-AP) de permanecer no comando, em articulação com Lula. Alcolumbre conta com o apoio do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na hipótese de vitória de Flávio Bolsonaro, a ida de Marinho para a Casa Civil poderia facilitar uma composição em torno de Tereza Cristina. Ela mantém a intenção de se tornar a primeira mulher a presidir o Senado. Com a derrota do candidato de direita, porém, a formação de alianças passa a depender de um quadro político diferente.
O Partido Liberal, que tem a maior bancada, com 29 senadores, também tem objetivos próprios. Para Lira, a capacidade de influenciar decisões dependerá de reunir votos e construir alianças, e não apenas do prestígio acumulado na Câmara. Um dos testes será a pressão por processos de impeachment contra ministros do STF.
Tereza Cristina admite discutir pedidos para afastar ministros, uma demanda popular que contribuiu para o avanço da direita no Senado. Essa posição, no entanto, não significa que Lira apoiará os pedidos. O senador terá de equilibrar a cobrança de grupos conservadores com seu perfil de negociador.
Vitória sobre Renan e novas alianças
A eleição também marcou a derrota de Renan Calheiros (MDB), adversário histórico de Lira em Alagoas. O resultado fortalece a posição do novo senador e amplia suas possibilidades de articulação, que incluem aliados do agronegócio e conexões no Nordeste. A região reúne um terço dos senadores e mantém articulações com representantes do Norte e do Centro-Oeste.
Lira conseguiu preservar espaço político em uma eleição em que outros nomes conhecidos, como Ciro Nogueira (PP-PI), José Dirceu (PT-SP) e Ciro Gomes (PSDB-SC), foram derrotados. Sua vitória mostra que bases municipais, alianças e acesso a recursos continuam relevantes para a sobrevivência política, mesmo em um ambiente marcado pela polarização.
Na Câmara, Lira construiu influência por meio do controle da pauta, da atuação em comissões e da ampliação das emendas parlamentares. Também articulou a eleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a Presidência da Casa, em 2025, com 444 votos e apoio de partidos de esquerda e de direita. A vitória demonstrou a capacidade de negociação de Lira, mas não garantiu controle sobre o sucessor, que passou a administrar os próprios interesses.
Negociação entre 81 senadores
O Senado impõe uma dinâmica diferente da Câmara. A Casa tem 81 integrantes, eleitos pelo voto majoritário e ligados a bases estaduais próprias. Embora existam líderes e diferenças de influência, os senadores têm autonomia maior para negociar entre si. Lira terá de construir acordos entre pares, sem depender da hierarquia que marcou sua atuação na Câmara.
O desafio é converter o mandato em influência efetiva, em vez de apenas encontrar no Senado um novo espaço político. A trajetória de outros ex-presidentes da Câmara, como Ibsen Pinheiro e Rodrigo Maia, inclui casos de perda de protagonismo. O texto também cita Michel Temer, que chegou à Presidência da República, e Aécio Neves, eleito governador, como exceções ao esvaziamento político.
Lira defende o semipresidencialismo e criou, em 2022, um grupo para discutir o modelo. A proposta dividiria as funções do Executivo entre presidente e primeiro-ministro. Sob o argumento de reduzir crises, o sistema ampliaria a participação do Congresso no comando do governo. A defesa do modelo se soma às negociações no Senado, onde Lira terá de demonstrar como pretende usar o poder conquistado nas urnas.

