A Cúpula de Líderes do Brics, que ocorrerá nos dias 12 e 13 de setembro em Nova Delhi, promete ser um marco importante para o agronegócio brasileiro, envolvendo negociações relacionadas ao comércio, insumos e as complexas nuances da geopolítica. Essa questão se torna ainda mais relevante em meio aos recentes conflitos que impactam o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz e afetam a oferta global de fertilizantes. Enquanto isso, na Ásia, Índia e China têm intensificado suas compras de alimentos e commodities agrícolas. Nova Delhi também busca avançar nas discussões sobre pagamentos internacionais entre os membros do bloco, uma iniciativa que pode simplificar as transações de soja, carnes, açúcar e insumos. Composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o Brics é uma aliança que busca fortalecer sua presença no cenário global.
De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária, as exportações brasileiras de produtos agropecuários totalizaram US$ 165 bilhões em 2024, com 41% destinados aos países do Brics. Durante as reuniões do Grupo de Trabalho de Agricultura, foi discutido um leque de temas, como segurança alimentar, produção sustentável, comércio e infraestrutura, além da elaboração do Plano de Ação 2025-2028. A declaração ministerial aprovada em Brasília reforçou o compromisso dos países em facilitar o comércio de produtos agrícolas entre si.
O papel agrícola do Brics é reflexo da importância do grupo dentro do sistema alimentar global. Segundo a declaração dos ministros da Agricultura, o bloco engloba 33% das terras agrícolas e 42% da produção agropecuária mundial. As prioridades estabelecidas incluem o fortalecimento do comércio agrícola, segurança alimentar e financiamento rural, além da promoção de inovações e sistemas de certificação integrados. A Declaração do Rio, ratificada pelos líderes em julho de 2025, destacou ainda a necessidade de minimizar interrupções no comércio de alimentos e fertilizantes e garantir o fluxo contínuo de insumos essenciais à produção agrícola. Veja, a seguir, quatro pontos fundamentais que merecem atenção durante o evento:
1 – Fertilizantes: um reflexo da guerra no Oriente Médio
A guerra no Oriente Médio trouxe desafios significativos para os produtores agrícolas brasileiros, particularmente no que diz respeito ao suprimento de fertilizantes. No ano de 2025, o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de adubos e fertilizantes químicos, totalizando US$ 15,46 bilhões, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior. Este cenário revela uma dependência alarmante: cerca de 80% dos fertilizantes utilizados nas lavouras brasileiras são provenientes do exterior.
Dentre as importações, a Rússia fornece 25,9% dos fertilizantes, a China, 18,8%, e o Oriente Médio, 14,5%. Os fertilizantes nitrogenados, que compõem cerca de um terço das importações, têm 22% de sua origem no Oriente Médio. Essa região é responsável por aproximadamente 34% do comércio global de ureia, usando o gás natural como insumo fundamental para a produção.
As tensões geopolíticas têm afetado as cadeias de suprimentos em um ano marcado por uma redução nas compras externas brasileiras. Entre janeiro e julho de 2025, o país importou 22,4 milhões de toneladas de fertilizantes, cerca de 7,48% a menos do que no mesmo período anterior, conforme relatório da Conab. Esse fator gera riscos preocupantes para o abastecimento interno, com um consumo projetado em 51,7 milhões de toneladas.
Uma resposta significativa foi implementada pelo governo brasileiro em setembro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.496, criando o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert). Esta lei visa diminuir a dependência externa e garantir uma oferta estável de insumos necessários à produção agrícola.
2 – A Índia abre portas para produtos brasileiros
A Índia, anfitriã da cúpula, está em um momento de expansão nas importações de alimentos. No primeiro semestre de 2026, as exportações do agronegócio brasileiro para a Índia alcançaram US$ 2,3 bilhões, um crescimento impressionante de 78,3% em relação ao mesmo período de 2025.
Este mercado é especialmente promissor para óleos vegetais, mas também começa a se abrir para outras categorias, como proteínas, farelo de soja, frutas e até produtos de madeira. A pressão nas lavouras indianas, decorrente de chuvas abaixo da média durante a temporada de monções em 2026, poderá aumentar ainda mais a necessidade de importação, especialmente de açúcar e óleos vegetais.
O governo indiano reagiu a essa demanda autorizando a importação sem tarifas de 1 milhão de toneladas de açúcar, uma medida adotada em resposta à alta dos preços internos e à proximidade dos festivais selecionados.
3 – Pagamentos entre membros do Brics podem beneficiar setores agrícolas
Outro ponto crucial diz respeito ao sistema de pagamentos. A Índia está pressionando por um modelo que conecte as moedas digitais emitidas pelos bancos centrais dos países do Brics, facilitando transações internacionais. A proposta busca dar continuidade ao diálogo sobre a interoperabilidade entre sistemas financeiros e o uso de moedas locais nas transações.
Um documento recente dos ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais dos países do Brics apresentou a Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços (BCBPI), que visa acelerar e baratear as transferências financeiras, permitindo liquidações em moedas nacionais. Embora o mecanismo seja voluntário, ele ainda enfrenta desafios técnicos e a necessidade de consenso político.
Para o agronegócio brasileiro, essas mudanças podem ter um impacto significativo, considerando o volume de comércio destinado aos países do bloco, especialmente China, Índia e Rússia, que são essenciais tanto na exportação quanto na importação de insumos. Qualquer alteração nos custos, prazos ou moedas de pagamento pode influenciar profundamente as transações de produtos como soja, carnes e açúcar.
No entanto, a proposta não está isenta de dificuldades. A ruptura nas relações financeiras entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, assim como as reservas da Índia em relação a uma maior integração financeira com a China, podem complicar sua implementação. Nova Delhi enfatiza que a intenção é facilitar transações internacionais sem criar uma moeda comum que substitua o dólar.
4 – A soja brasileira no confronto entre China e EUA
A soja é a commodity brasileira mais vulnerável às oscilações nas decisões de compra da China e às tensões comerciais entre Pequim e Washington. Em 2025, a China importou US$ 50,33 bilhões em soja, totalizando 111,83 milhões de toneladas, um volume recorde e 6,5% maior que em 2024, segundo dados da alfândega chinesa. Deste montante, impressionantes US$ 34,5 bilhões vieram do Brasil, representando 68,5% das importações chinesas de soja.
Nas últimas semanas, empresas estatais chinesas realizaram compras significativas de soja dos Estados Unidos, com o Departamento de Agricultura dos EUA confirmando vendas de 340 mil toneladas. Essas movimentações ocorreram antes da esperada visita do presidente Xi Jinping aos EUA, em um período em que a oferta brasileira estava em transição entre safras.
As compras dos EUA ganham importância, pois a China costumava depender fortemente da soja brasileira. Contudo, os importadores chineses ainda enfrentam uma tarifa de 10% sobre o produto norte-americano, o que mantém a soja brasileira como uma opção competitiva ao longo do ano. Qualquer mudança nessas tarifas ou nas condições comerciais pode reconfigurar o equilíbrio entre as compras chinesas de soja do Brasil e dos Estados Unidos.
Além disso, a sazonalidade influencia essa dinâmica, com o Brasil concentrando suas maiores exportações após a colheita, enquanto os EUA se destacam no segundo semestre, à medida que as colheitas americanas chegam ao mercado e as reservas brasileiras diminuem. Portanto, mudanças nas relações comerciais entre as duas potências durante esse período poderão ter um impacto direto nos preços e decisões de venda pelos produtores brasileiros.


