O Comitê de Política Monetária (Copom) deve decidir em novembro se mantém a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano ou faz um último corte após as eleições. A pressão inflacionária, a alta do dólar e as dúvidas sobre a condução das contas públicas levaram parte do mercado a abandonar a expectativa de redução de 0,25 ponto percentual.
Antes do segundo turno, a maioria dos analistas esperava que o Banco Central reduzisse os juros. Depois da eleição, a manutenção da taxa ganhou força. Há casas que projetam uma pausa prolongada: a XP, por exemplo, prevê Selic em 13,75% até o fim de 2027.
“Até a semana passada, o mercado trabalhava com mais um corte de 0,25. A eleição mudou esse quadro em um dia: o dólar subiu cerca de 8%, a inflação implícita nos títulos públicos avançou mais de um ponto e as curvas indicam alta chance de pausa”, afirma Guilherme Ghidetti, sócio e diretor de investimentos da Jera Capital.
Inflação e câmbio reduzem espaço para corte
O dólar passou de R$ 4,96 na sexta-feira anterior ao segundo turno para R$ 5,48 na terça-feira, dia 3, o maior valor de fechamento do ano de 2026. A desvalorização do real pode encarecer produtos importados e combustíveis, com reflexos nos preços domésticos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação, acumulava alta de 4,58% em 12 meses, acima do teto de 4,5% da meta.
Para Ghidetti, o repasse do câmbio aos preços e a possibilidade de alta nas expectativas de inflação limitam a margem do Banco Central. “Cortar agora seria contar com a normalização do câmbio sem nenhum sinal concreto do lado fiscal”, diz.
A inflação de serviços também pesa na decisão. Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, afirma que os serviços intensivos em trabalho, que refletem a demanda interna e os salários, já registram alta superior a 7%. Na avaliação dele, esse comportamento favorece a manutenção de juros restritivos por mais tempo.
O economista Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos da AW Capital, diz que a desaceleração da atividade e os dados de inflação e de produto interno bruto (PIB) poderiam dar espaço para um corte. Mas, segundo ele, o custo dos juros futuros e a possibilidade de o mercado exigir remuneração maior para financiar o governo tornam a redução menos provável.
Analistas divergem sobre a decisão
Entre os que esperam a manutenção em novembro está Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research. Ele projeta Selic em 13,75% até o fim de 2026 e queda para 12% ao fim de 2027. Sung cita a pressão do El Niño sobre os alimentos, o petróleo acima de US$ 110 por barril e os custos trabalhistas associados ao fim da escala 6×1 como fatores que restringem cortes.
Carlos Lopes, economista do BV, também não espera redução em novembro ou dezembro. Ele prevê que a taxa permaneça estável por período prolongado, pelo menos até o segundo trimestre do ano seguinte.
Outra parte dos analistas ainda prevê um corte de 0,25 ponto, para 13,5%. É o caso de Leandro Padulla, economista do ASA, e Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter. Padulla argumenta que a atividade econômica está perdendo força e que a política monetária continuaria restritiva mesmo após uma redução. Ele reconhece, porém, que a depreciação do real e a possível piora das expectativas diminuíram o espaço para flexibilização.
Vitoria também considera que a Selic em 13,5% seria suficiente para conter os choques inflacionários esperados para o início de 2027. A economista prevê, no entanto, que os cortes só sejam retomados no fim de 2027, caso medidas fiscais estruturantes sejam implementadas. Para ela, o Copom poderia reduzir a taxa em novembro e sinalizar uma pausa na reunião seguinte.
Simioni, da Blue3, alerta que um corte prematuro pode elevar os juros de prazo mais longo, mesmo que a taxa de curto prazo caia. Esse movimento, chamado por ele de “repressão financeira”, poderia encarecer o crédito imobiliário, os investimentos produtivos e o refinanciamento da dívida pública.
Risco externo e fiscal entra na conta
O cenário internacional também influencia a decisão. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, afirma que a manutenção dos juros pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, entre 3,75% e 4% reduz a diferença entre as taxas americanas e brasileiras. Isso diminui a atratividade de operações de carry trade, nas quais investidores buscam ganhos com diferenças de juros entre países, e pode manter pressão sobre o real.
Kayo também cita o petróleo elevado em meio às tensões no Oriente Médio e o impacto do El Niño sobre os alimentos. Para ele, esses fatores, somados às expectativas de inflação acima da meta, tornam menos provável que o Copom trate a desvalorização cambial como passageira.
As dúvidas sobre a política fiscal do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito, reforçam a cautela dos investidores. Ghidetti afirma que a independência do Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo desde janeiro de 2025, é uma proteção contra a deterioração dos ativos domésticos. Ele lembra que o Copom elevou a Selic até 15% em junho de 2025 e só começou a reduzir os juros em março de 2026.
As projeções do Boletim Focus também refletem a mudança de percepção. Segundo André Matos, CEO da MA7 Capital, a estimativa para a Selic no fim de 2027 subiu de 11,75% para 12,50%, enquanto a previsão de inflação avançou de 4,34% para 4,76%. Matos estima que cada ponto percentual a mais na taxa básica represente cerca de R$ 50 bilhões anuais em juros para o governo. Sem um plano fiscal convincente, afirma, a dívida pública poderia chegar a 77% do PIB em 2028.
Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, e Gustavo Assis, CEO da Asset, também condicionam a possibilidade de juros menores até 2028 ao controle das despesas obrigatórias. Sem esse controle, dizem, o mercado tende a exigir prêmios de risco maiores nos juros futuros e no câmbio.

