O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4), em decisão unânime que interrompeu a sequência de cortes iniciada em 2026. A manutenção contrariou a mediana das projeções do mercado, que apontava para uma redução de 0,25 ponto percentual, em meio a incertezas políticas, cambiais e externas.
Com o resultado, a taxa básica de juros ficou acima da mediana das estimativas pela primeira vez desde junho de 2025. Antes da decisão, as instituições financeiras estavam divididas sobre o rumo dos juros, embora a expectativa predominante ainda fosse de um novo corte.
Mercado estava dividido sobre a decisão
Pesquisa Projeções Broadcast divulgada na sexta-feira (30) ouviu 75 instituições. Desse total, 39 esperavam que a Selic caísse para 13,50% ao ano, enquanto 36 previam a manutenção em 13,75%. A mediana das projeções indicava redução de 0,25 ponto percentual.
Parte do mercado, porém, já considerava a possibilidade de uma pausa. A expectativa por um corte havia prevalecido antes do segundo turno das eleições, mas o cenário político mudou e aumentou a aposta de que o Copom poderia interromper o ciclo de afrouxamento monetário. Esta foi a primeira reunião do comitê após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A taxa Selic é o principal instrumento do Banco Central para conter a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Por isso, a decisão mantém inalterado o nível dos juros básicos enquanto o indicador acumulado em 12 meses está acima do teto da meta de inflação.
Incertezas incluem câmbio e cenário externo
Entre os fatores presentes no cenário descrito antes da reunião estão a instabilidade cambial e o agravamento da guerra no Oriente Médio. O conflito envolvendo o Irã trouxe incertezas sobre possíveis efeitos nas cadeias globais de suprimentos, nos preços das commodities e na inflação. O início do fenômeno climático El Niño também entrou no radar.
Até a decisão desta quarta-feira, o Banco Central havia reduzido a Selic cinco vezes seguidas, sempre em 0,25 ponto percentual. Antes desse ciclo, os juros permaneceram em 15% ao ano por dez meses consecutivos, entre junho de 2025 e março de 2026. Esse foi o maior patamar em quase duas décadas.
A manutenção interrompe a trajetória de queda, mas não altera o valor da taxa em vigor desde o último movimento. A decisão também deixa a Selic em 13,75%, acima do nível de 13,50% que representava a previsão central do mercado antes da reunião. A diferença entre as projeções e o resultado mostra que a possibilidade de pausa, embora considerada por parte das instituições, não era a estimativa predominante.
Inflação ultrapassa o teto da meta
Em outubro, o IPCA-15, considerado uma prévia da inflação oficial, subiu 0,32%. A redução das contas de luz contribuiu para aliviar o índice no mês. No acumulado de 12 meses, porém, a inflação avançou de 4,5% para 4,62%, acima do limite superior da meta, de 4,5%.
O Brasil adota desde janeiro de 2025 o sistema de meta contínua. O Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu o objetivo central de inflação em 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Com isso, a faixa considerada compatível com a meta vai de 1,5% a 4,5%.
Nesse modelo, o cumprimento da meta é avaliado todos os meses com base na variação acumulada do IPCA nos 12 meses anteriores. A verificação, portanto, não depende apenas do resultado fechado em dezembro: acompanha a evolução da inflação ao longo do ano.
O Copom também opera com dois cargos de diretoria vagos. Os mandatos de Renato Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro, e de Diego Guillen, diretor de Política Econômica, terminaram no fim de 2025. Até a reunião, o presidente Lula ainda não havia enviado ao Congresso Nacional os nomes para substituir os dois diretores.

