Experiência com 15 mil empresários no G4 Valley indica fim da era do improviso


Mais de 15 mil empresários e executivos participaram do G4 Valley, realizado entre 29 e 31 de outubro no São Paulo Expo. As discussões abordaram como proteger o caixa em um cenário de juros elevados, reduzir a dependência de anúncios pagos e estruturar equipes capazes de operar sem a intervenção constante do fundador.

Os relatos apresentados no evento apontaram para a importância de processos, gestão financeira e autonomia das equipes diante do custo do capital, da concorrência pela atenção dos consumidores e da pressão sobre as margens. Entre os exemplos citados estavam decisões de expansão, práticas de governança e o uso de tecnologia para apoiar operações comerciais.

Decisões e processos em empresas de diferentes setores

Salim Mattar relembrou a estratégia da Localiza em 1983, durante uma crise. Enquanto concorrentes interromperam as compras de veículos, a empresa ampliou a frota com alavancagem considerada responsável. A decisão, segundo o relato apresentado, permitiu renovar os carros e ampliar a presença no mercado.

David Feffer falou sobre a estrutura da Suzano, empresa que, conforme a apresentação, mantém a liderança aos 102 anos. O exemplo foi associado à valorização da competência técnica e da governança, em vez da influência do sobrenome nas decisões.

Edgard Corona, da Smart Fit, descreveu um filtro para avaliar projetos com três perguntas: para quem a iniciativa será feita, quem ficará responsável e o que será executado. A formulação destaca a definição de um responsável direto por cada entrega.

Os irmãos Dasi apresentaram o desempenho da Growth, que alcançou R$ 2 bilhões em faturamento e mais de 70% de recompra, segundo os números mencionados no evento. Eles relacionaram os resultados ao uso de inteligência artificial (IA) e de sistemas de gestão do relacionamento com clientes, conhecidos pela sigla CRM, em atividades comerciais.

Florian Bartunek, ao lado de Tallis Gomes, resumiu a atenção necessária à operação com a frase “um olho no cliente e outro no caixa”. O princípio também apareceu em discussões sobre crescimento: faturamento elevado, por si só, não indica que uma empresa esteja gerando lucro ou preservando recursos para financiar suas atividades.

Conteúdo próprio e autonomia das equipes

Uma das ideias discutidas foi a de que conteúdo produzido pela própria empresa pode funcionar como canal de distribuição, em vez de servir apenas à construção de imagem. A Cimed foi citada como exemplo de companhia que usa a exposição do fundador e de lideranças para se comunicar diretamente com o público.

A estratégia pode reduzir a dependência de plataformas como Meta, Google e marketplaces, que cobram pela divulgação ou intermediação de vendas. O material relaciona a construção de autoridade e comunidade à redução do custo de aquisição de clientes (CAC), indicador que mede quanto a empresa gasta para conquistar cada consumidor.

Outro tema foi a dependência da operação em relação ao dono. O argumento apresentado no evento é que uma empresa precisa ter metas definidas, responsabilidades claras e autonomia para que a equipe tome decisões sem recorrer ao fundador a cada etapa. A governança, nessa perspectiva, também se aplica a pequenas e médias empresas e não se limita a conselhos formais.

Margem, caixa e uso prático da tecnologia

Os participantes também foram orientados a acompanhar a margem de cada produto, identificado pela sigla SKU, e de cada cliente. O cálculo deve considerar despesas como frete, publicidade, comissões e custos associados aos prazos de pagamento. Sem essa análise por canal, uma empresa pode vender mais e, ainda assim, comprometer o capital de giro — os recursos usados para manter a operação em funcionamento.

Entre as medidas sugeridas para aplicar as discussões, estão revisar as principais contas e os produtos mais vendidos, identificar quais geram margem real e estabelecer limites de decisão para as equipes. O material também propõe avaliar quanto da receita depende de anúncios ou marketplaces e desenvolver conteúdo próprio como alternativa de venda.

Sobre inteligência artificial, a orientação foi avaliar resultados concretos, como horas de trabalho economizadas e custos operacionais reduzidos. A tecnologia foi apontada como mais útil quando aplicada a tarefas centrais, como cobrança, conciliação e qualificação de contatos comerciais. No encerramento, Steve Wozniak alertou que ferramentas podem ser alugadas, mas dados e histórico dos clientes devem permanecer sob controle da empresa.

O foco das recomendações foi traduzir as ideias em mudanças de gestão, com atenção ao caixa, à margem e à distribuição de responsabilidades. Os participantes foram instados a revisar processos e a identificar pontos em que a atuação do fundador ainda representa um gargalo.

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