Google desafia chips da Nvidia, impulsiona vendas na nuvem e afeta fluxo de caixa


A Alphabet passou a vender chips de inteligência artificial (IA) desenvolvidos internamente e já fatura bilhões de dólares com esses produtos, antes destinados ao uso da própria empresa. A expansão, impulsionada pela demanda de clientes, exige a formação antecipada de estoques e amplia a pressão sobre o caixa, num momento em que a companhia também eleva os gastos com data centers e infraestrutura de IA.

Estoques ampliam a pressão sobre o caixa

A venda de chips representa uma dinâmica financeira diferente dos negócios tradicionais de busca e computação em nuvem da Alphabet. Para atender aos compradores, a empresa precisa investir em equipamentos antes de receber o pagamento, o que afeta o fluxo de caixa — o dinheiro que entra e sai das operações.

A diretora financeira da Alphabet, Anat Ashkenazi, explicou a mudança durante a teleconferência de resultados realizada na quarta-feira (28). Segundo ela, os estoques, antes compostos principalmente por alguns produtos de hardware, agora também incluem sistemas de unidades de processamento tensorial (TPUs) que ainda não registraram vendas líquidas.

“Enquanto antes os estoques eram compostos principalmente por alguns de nossos produtos de hardware, agora os sistemas TPU (chips personalizados) que ainda não tiveram vendas líquidas começarão a aparecer. Então você vê o dinheiro saindo… não é o tipo tradicional de investimento de capital, mas sim um ciclo diferente de geração de fluxo de caixa”, disse Ashkenazi.

O comentário aponta para uma necessidade de financiar os componentes e sistemas antes que a receita correspondente seja recebida. A executiva distinguiu esse movimento do investimento de capital tradicional e o descreveu como um ciclo próprio de geração de caixa. A mudança ocorre enquanto a Alphabet amplia uma área que se tornou uma das principais frentes de crescimento da companhia.

Receita do Google Cloud cresce

A empresa não informa separadamente quanto arrecada com a venda de chips nem quais são as margens dessa operação. Ainda assim, afirmou que as vendas de TPUs tiveram contribuição “significativa” para os resultados do Google Cloud no trimestre encerrado em setembro. A receita da divisão de nuvem mais que dobrou no período.

Os sistemas vendidos não se limitam aos processadores. Eles reúnem chips, redes, armazenamento e software, formando uma estrutura para o processamento de tarefas de IA. Thomas Kurian, presidente-executivo do Google Cloud, afirmou que as vendas desses sistemas devem aumentar ainda mais no trimestre em curso e crescer significativamente em 2027.

A Alphabet já anunciou um acordo para fornecer TPUs à Anthropic, em uma operação avaliada em dezenas de bilhões de dólares. Reportagens da mídia também indicam que a empresa negocia um acordo semelhante com a OpenAI. A companhia, porém, não apresentou valores separados de receita ou lucro para os chips, o que limita a avaliação do desempenho específico desse negócio.

Gastos de infraestrutura preocupam investidores

A expansão das vendas de chips ocorre junto a uma alta dos investimentos em infraestrutura de IA. Depois da divulgação dos resultados, as ações da Alphabet caíram quase 11% na quinta-feira (29). A empresa havia registrado mais um trimestre de consumo de caixa e reiterado que os gastos com infraestrutura de IA vão aumentar acentuadamente no próximo ano.

O movimento aumenta a atenção dos investidores sobre o custo de desenvolver e fornecer tecnologia de IA. Também coincide com preocupações sobre uma possível ameaça da inteligência artificial ao negócio de publicidade associado ao mecanismo de busca da empresa, descrito como lucrativo na notícia.

Apesar da pressão financeira no curto prazo, os chips contribuem para o crescimento da Alphabet, especialmente por meio do Google Cloud. A empresa não detalhou quando o dinheiro gasto na produção e na formação de estoques se transforma em receita, nem divulgou margens próprias para os sistemas TPU.

Executivo vê oscilações como temporárias

Jeremy Saltzberg, diretor sênior de investimentos da Check Capital, avaliou que as oscilações de caixa devem ser passageiras. “Acreditamos piamente que essas oscilações são de curto prazo”, disse.

Saltzberg também comparou as possíveis margens dos chips da Alphabet às dos processadores gráficos da Nvidia. “Não temos motivos para acreditar que as margens seriam significativamente diferentes do preço de venda de uma GPU (unidade de processamento gráfico) da Nvidia. E, claro, a margem de lucro das GPUs da Nvidia é incrível.”

A comparação indica a expectativa do executivo sobre a rentabilidade potencial do negócio, mas a Alphabet não divulga dados que permitam verificar as margens dos próprios chips. Por enquanto, a empresa associa o avanço das vendas à expansão do Google Cloud e prevê crescimento dos sistemas TPU nos próximos períodos, ao mesmo tempo que mantém elevados os gastos necessários para atender à demanda.

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