JPMorgan rebaixa Vamos para neutro e prefere Rumo e Motiva


O JPMorgan elevou o custo de capital próprio das empresas brasileiras de transportes sob sua cobertura e reduziu, em média, 36% os preços-alvo para dezembro de 2027, após a turbulência nos mercados provocada pelo resultado das eleições presidenciais. O banco manteve Motiva e Rumo entre suas ações preferidas e rebaixou a recomendação da Vamos de compra para neutra. A revisão reflete o aumento dos juros e a incerteza sobre as perspectivas para a economia e os resultados das companhias.

O custo de capital próprio, usado para estimar o retorno exigido pelos acionistas, subiu de 2 a 2,5 pontos percentuais nos modelos do banco. Uma semana após o resultado eleitoral, as ações do setor cobertas pelo JPMorgan acumulavam queda de 46%, desempenho 28 pontos percentuais abaixo do Ibovespa. Antes disso, haviam avançado 37% entre o primeiro e o segundo turno.

No mesmo período, a taxa nominal dos títulos brasileiros de dez anos subiu 2,5 pontos percentuais e superou 15%. O JPMorgan manteve, por enquanto, as projeções de resultados das empresas. O banco aguarda a atualização das estimativas macroeconômicas e a publicação dos balanços do terceiro trimestre de algumas companhias.

Juros pressionam locadoras

Nos cálculos do banco, uma alta de 100 pontos-base — equivalente a 1 ponto percentual — na Selic média de 2027, projetada em 13,2% pelos modelos do JPMorgan, reduziria de 5% a 10% os lucros das empresas de locação de veículos. Para companhias de infraestrutura, o efeito seria marginal.

Embora as ações do setor sejam negociadas a múltiplos próximos dos menores níveis em cinco anos, o banco alerta que as avaliações podem perder relevância diante de possíveis revisões negativas de resultados, da continuidade da saída de capital estrangeiro do Brasil e de novas quedas dos múltiplos. Sem catalisadores para uma recuperação, algumas empresas podem permanecer descontadas por mais tempo.

A Motiva é a principal escolha do JPMorgan, com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 19,50. O banco considera que o modelo de negócios oferece maior previsibilidade e vê potencial de geração de valor em aditivos aos contratos de concessão rodoviária. Essas mudanças poderiam acrescentar mais de 10% ao valor presente líquido (VPL), medida que calcula o valor atual de ganhos futuros, e elevar em cerca de 1 ponto percentual a taxa interna de retorno real (TIR).

Entre os riscos estão a pressão da inflação sobre os investimentos e uma eventual redução do tráfego em caso de desaceleração econômica. Ainda assim, segundo o JPMorgan, 80% da receita da Motiva conta com algum mecanismo de reajuste pela inflação.

Para a Rumo, o banco também recomenda compra e estabelece preço-alvo de R$ 20. A análise destaca a estratégia de geração de caixa da administração, sustentada por uma estrutura de investimentos mais leve e pela melhora das tarifas de frete. O principal risco apontado é a ocorrência do fenômeno climático El Niño durante o desenvolvimento da safra 2026/27. Até o momento, o plantio de soja evolui de forma favorável.

Rebaixamento para a Vamos

O JPMorgan cortou a recomendação da Vamos de compra para neutra, citando a perspectiva de juros altos por mais tempo. A alavancagem da empresa — relação entre dívida e capacidade de geração de caixa — era de 2,9 vezes no terceiro trimestre de 2026. Segundo o banco, uma alta de 1 ponto percentual na Selic média de 2027 poderia reduzir em 9% as estimativas de lucro da companhia, mantidas as demais variáveis.

As ações da Vamos caíram 63% na última semana e são negociadas perto das mínimas históricas de valuation, ou seja, de avaliação de mercado. Mesmo assim, o banco vê poucos fatores capazes de impulsionar uma recuperação dos múltiplos no curto prazo. Um cenário econômico mais difícil e condições de crédito restritivas também poderiam pressionar a operação e a retomada de ativos.

O JPMorgan reconhece, por outro lado, que a empresa melhorou a operação nos últimos trimestres. A Vamos reduziu a retomada de ativos e elevou a taxa de utilização da frota, que se aproxima da meta de aproximadamente 90%. Esses indicadores haviam pressionado os resultados em 2024 e 2025. O banco também avalia positivamente a postura mais conservadora da administração e a sequência de resultados melhores.

Recomendações para outras ações

O JPMorgan mantém recomendação neutra para a Simpar, com preço-alvo de R$ 9,50. O desconto de holding — diferença entre o valor de mercado da controladora e o valor de suas participações — está em 25%, nível que o banco considera alinhado ao valor justo. Apesar dos esforços para reduzir o endividamento da controladora, a instituição avalia que novas iniciativas podem trazer benefícios modestos e não eliminar o desconto.

Para a JSL, a recomendação é de compra, também com preço-alvo de R$ 9,50. O banco cita o posicionamento da empresa em um setor fragmentado e seu histórico de execução de fusões e aquisições. A companhia reorganiza as equipes comerciais e alinha as operações aos segmentos recém-criados de serviços dedicados, Intralog e JSL Conecta.

A Localiza tem recomendação neutra e preço-alvo de R$ 50. O JPMorgan aponta os juros elevados e a concorrência das montadoras chinesas, que devem manter preços agressivos e lançar novos modelos, como fatores de pressão sobre a depreciação dos veículos. Em contrapartida, destaca a capacidade de execução da locadora e sua possibilidade de se beneficiar de uma eventual queda dos juros e da retomada dos fluxos estrangeiros.

O banco recomenda compra para a Ecorodovias, com preço-alvo de R$ 8,50. A análise ressalta a resiliência do negócio e a previsibilidade dos resultados, apesar de um plano de investimentos superior a R$ 60 bilhões e da expectativa de alavancagem elevada nos próximos anos. Entre os pontos de atenção estão o projeto da terceira pista da Ecovias Imigrantes e a trajetória de redução da dívida.

Para a Movida, a recomendação é neutra, com preço-alvo de R$ 8,50. O JPMorgan aponta retornos menores e alavancagem mais alta que os da Localiza, mas reconhece o avanço operacional da empresa, com aumento dos preços de aluguel e margens de Ebitda — indicador de resultado operacional — em níveis historicamente elevados. O banco espera que essa tendência continue nos próximos trimestres.

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