JPMorgan vê piora gradual do ciclo de crédito e mantém cautela com bancos brasileiros


O setor bancário brasileiro deve enfrentar um cenário desafiador em 2027, com juros elevados, desaceleração econômica e maior endividamento das famílias, segundo análise do JPMorgan sobre o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central. Para o banco, a combinação desses fatores pode desacelerar o crédito, elevar as provisões para perdas e pressionar a rentabilidade das instituições. O ciclo de crédito deve voltar ao foco dos investidores após as eleições.

Endividamento pressiona famílias

Um dos principais alertas apontados pelo JPMorgan é o comprometimento da renda das famílias com dívidas, que chegou a cerca de 29%, o maior nível em 21 anos. O Banco Central adotou uma postura mais cautelosa em relação à qualidade dos ativos e indicou que os riscos para o sistema financeiro aumentaram e devem continuar pressionados no curto prazo.

A situação é mais delicada entre as famílias de baixa renda. Em junho deste ano, quem recebia até dois salários mínimos destinava 42% da renda ao pagamento de dívidas. O percentual é mais que o dobro do observado entre consumidores de renda mais alta, segundo os dados analisados pelo banco.

Cartões de crédito e empréstimos pessoais sem garantia — modalidades em que não há um bem dado como segurança para o pagamento — respondem por cerca de 60% do serviço da dívida desse grupo. Em 2018, essas linhas representavam 38%. A mudança indica maior peso de modalidades que o JPMorgan associa a um risco mais elevado para as carteiras de crédito.

Ativos problemáticos em alta

O relatório do Banco Central também mostra uma piora nos chamados ativos problemáticos. O indicador não considera apenas operações em atraso: inclui também créditos renegociados e outros empréstimos avaliados como mais arriscados. De acordo com o JPMorgan, esses ativos atingiram os níveis mais altos desde 2012 em várias modalidades, sobretudo cartões e empréstimos pessoais sem garantia.

A inadimplência também aumenta, apesar de mudanças nas regras contábeis usadas para dar baixa em créditos não pagos. O Banco Central estima que, se os critérios antigos ainda estivessem em vigor, a taxa de inadimplência seria 0,78 ponto percentual menor. Ainda assim, a autoridade monetária aponta a deterioração da qualidade das carteiras como o principal fator por trás da elevação dos atrasos.

Para o JPMorgan, o quadro tende a resultar em custos de crédito mais altos para as instituições com maior exposição a linhas de maior risco. Uma piora econômica pode ainda limitar o crescimento das carteiras de empréstimos e reduzir as margens financeiras, a diferença entre o custo de captação dos bancos e o retorno obtido com os créditos concedidos.

Lucros e rentabilidade sob pressão

A análise também destaca o enfraquecimento da rentabilidade do sistema financeiro. Com base em dados compilados pelo Banco Central, o JPMorgan afirma que apenas os grandes bancos privados de primeira linha conseguiram manter avanço do retorno sobre o patrimônio, conhecido pela sigla ROE. O indicador mede o lucro em relação ao capital dos acionistas. Boa parte do setor opera perto ou abaixo do custo de capital, isto é, do retorno mínimo necessário para remunerar os recursos investidos.

O banco vê risco de pressão adicional sobre os resultados nos próximos trimestres. Entre os fatores citados estão a redução dos spreads, a diferença entre as taxas cobradas nos empréstimos e os custos de captação; uma concessão de crédito mais conservadora; e o aumento das provisões, valores separados para cobrir perdas esperadas com empréstimos.

Uma eventual deterioração do ambiente econômico pode afetar os lucros por mais de uma via: reduzir o ritmo de expansão do crédito, comprimir as margens e elevar as despesas ligadas a perdas. Esses fatores, segundo o JPMorgan, podem levar investidores a rever as expectativas de resultado para os bancos.

Preferências do JPMorgan

Em meio aos riscos, o JPMorgan mantém preferência por instituições que considera mais resilientes, como Itaú Unibanco (ITUB4) e Itaúsa (ITSA4). O banco cita receitas mais diversificadas, disciplina na concessão de crédito e maior capacidade de preservar a rentabilidade.

A avaliação é mais cautelosa para Banco do Brasil (BBAS3), por causa dos desafios no agronegócio e da pressão sobre capital e rentabilidade, e para Bradesco (BBDC4). Na visão dos analistas, juros mais altos e crescimento limitado dos lucros podem dificultar a recuperação do Bradesco.

O JPMorgan também aponta seguradoras e empresas ligadas ao mercado de capitais como nomes bem posicionados para enfrentar juros elevados e desaceleração do crédito. Entre elas estão B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11) e XP (XP).

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