A falta de investimentos em minerais críticos no mercado global


Os Estados Unidos e seus aliados passaram a investir em etapas da cadeia de minerais críticos para reduzir a dependência da China, mas a expansão de refinarias não garante o abastecimento de longo prazo. Como a abertura de uma mina pode levar cerca de 20 anos, países do G7 precisam financiar novos projetos desde já, inclusive os que ainda estão em fases iniciais e enfrentam dificuldade para atrair capital privado.

Os minerais críticos são insumos importantes para semicondutores, tecnologias de defesa e automóveis. Desde 2023, controles de exportação adotados periodicamente por Pequim evidenciaram os riscos de depender de um único país para obter esses materiais. Governos e empresas dos Estados Unidos e da Europa começaram a investir em minas, refinarias, reciclagem, ímãs e baterias.

Boa parte dos recursos, porém, tem sido direcionada a minas em operação ou próximas de iniciar a produção e a instalações de processamento. Essas iniciativas podem aliviar problemas imediatos, mas refinarias precisam de fornecimento constante de minério bruto. Sem novas minas, a capacidade de processamento não assegura que haverá matéria-prima suficiente no futuro.

Projetos ficam sem recursos no meio do caminho

Empresas menores de mineração, chamadas de “juniores”, costumam conduzir as primeiras etapas de exploração. Elas têm capitalização de mercado reduzida, concentram-se em um ou poucos projetos e, em geral, são listadas em bolsas da Austrália ou do Canadá. A prospecção inicial pode levar à descoberta de um depósito promissor, mas isso não significa que a mina será construída.

Para avançar, as empresas precisam financiar estudos de viabilidade, que avaliam o tamanho do depósito, as necessidades de engenharia, os custos e os retornos esperados. Esses estudos podem custar dezenas de milhões de dólares, além das despesas com perfuração, engenharia, licenças e planejamento. Bancos comerciais tendem a evitar projetos sem receita, garantias ou certeza de que serão viáveis.

As grandes mineradoras também têm mostrado pouco interesse em assumir esse risco. Mesmo com o aumento da demanda por minerais, a parcela de suas receitas reinvestida em novos projetos permaneceu estável. Sem financiamento externo, as empresas juniores não conseguem concluir estudos necessários para atrair recursos para a construção da mina. Esse intervalo é conhecido como “vale da morte” do financiamento.

Empresas chinesas costumam fornecer capital nessa etapa e, em alguns casos, tornam-se a única alternativa viável. Assim, a presença da China nas cadeias de abastecimento também depende de descobertas feitas por empresas ocidentais: Pequim pode financiar projetos que outros investidores consideram arriscados demais.

China amplia investimentos e presença local

Em 2025, a China destinou US$ 32 bilhões a projetos de mineração e metais por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, acima do recorde anterior de US$ 21 bilhões, registrado no ano anterior. Empresas chinesas também compram participações em companhias e participam de acordos em que financiam portos, instalações de energia e ferrovias em países ricos em minerais, em troca de uma parte dos lucros de projetos de mineração.

Essa estratégia permite distribuir recursos por diversos projetos e países: os ganhos dos empreendimentos bem-sucedidos podem compensar perdas em outros. A China também mobiliza empresas estatais, firmas de geologia, companhias privadas e funcionários do governo para avaliar depósitos e negociar licenças, infraestrutura e transporte com os países anfitriões.

A diferença de investimento é expressiva na África, que abriga grandes recursos minerais ainda não explorados. Em 2023, os Estados Unidos investiram cerca de US$ 300 milhões em projetos de minerais críticos no continente; a China aplicou entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões.

Na República Democrática do Congo, empresas chinesas controlam cerca de 70% das minas de cobalto e cobre. Entre 2008 e 2020, bancos e companhias chinesas concederam mais de US$ 9 bilhões em crédito para desenvolvimento e operação de minas no país. O Banco de Exportação e Importação da China também forneceu US$ 3 bilhões em empréstimos para infraestrutura.

Um exemplo é o projeto de cobre Kamoa-Kakula. Em 2015, a canadense Ivanhoe Mines buscou financiamento para desenvolvê-lo, mas a chinesa Zijin Mining adquiriu participação depois que investidores ocidentais não aceitaram o risco. O projeto está a caminho de se tornar uma das maiores minas de cobre do mundo. A propriedade também influencia o destino da produção: quando empresas chinesas controlam uma mina, os minerais tendem a seguir para refinarias ou fabricantes na China.

G7 tem alternativas, mas precisa ampliar o financiamento

Estados Unidos e aliados contam com mercados de capitais relevantes para financiar mineração. Em 2024, duas bolsas de Toronto reuniam quase 1.100 empresas de mineração listadas, cerca de 40% do total mundial. Essas companhias responderam por aproximadamente um terço do capital acionário captado globalmente pelo setor nos cinco anos anteriores. A Bolsa de Valores da Austrália tinha cerca de 850 empresas de desenvolvimento de projetos de mineração naquele ano.

O financiamento, contudo, enfrenta obstáculos. Depósitos de acesso mais fácil já foram explorados, e novas áreas podem ser mais complexas e caras. Exigências sociais e ambientais também prolongam os processos de licenciamento, aumentando o tempo até que um projeto gere retorno. Além disso, a produção excedente da China reduziu os preços de minerais importantes e desestimulou novos investimentos.

Os Estados Unidos começaram a assumir participações em mineradoras e ampliar empréstimos. Anúncios oficiais apontam cerca de US$ 50 bilhões em investimentos, mas os acordos assinados somam aproximadamente US$ 9 bilhões, e o dinheiro efetivamente desembolsado chega a cerca de US$ 4 bilhões. A maior parte beneficia projetos mais próximos da produção, e não os que estão no vale da morte.

Uma alternativa seria ampliar incentivos fiscais para exploração, seguindo o modelo canadense. O Canadá oferece créditos tributários e permite que empresas de mineração financiem exploração e desenvolvimento por meio de ações com benefícios fiscais aos investidores. Países do G7 poderiam adotar mecanismos semelhantes e permitir que investidores usem os incentivos em projetos de qualquer integrante do grupo.

Também seria possível criar uma estrutura conjunta entre Estados Unidos, Japão e países europeus para financiar estudos de viabilidade. O fundo poderia apoiar projetos promissores em troca de participação acionária ou de royalties quando a mina começasse a operar, distribuindo o risco entre diferentes iniciativas. A tese é que, sem capital para novas minas, as refinarias construídas hoje podem enfrentar falta de matéria-prima no futuro.

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