Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, afirmou que o governo Lula já procurou o partido para conversar sobre apoio a um quarto mandato do presidente, após a reeleição nas urnas. Em entrevista ao jornal O Globo, Kassab condicionou uma aproximação mais profunda à adoção de medidas econômicas e a um gesto de Lula para ampliar o diálogo com partidos de centro.
O PSD ocupa três ministérios no atual governo. Segundo Kassab, a conversa ainda depende de iniciativas do presidente para unir o país e aumentar sua base de apoio, objetivo que, na avaliação do dirigente, não foi alcançado no terceiro mandato. “Se medidas econômicas forem adotadas, estaremos mais próximos, sim. Aí poderemos ter uma relação mais profunda”, disse.
Apoio depende de medidas e diálogo
Kassab afirmou que o governo tomou a iniciativa de procurar o PSD, mas não detalhou quais medidas econômicas poderiam aproximar as partes. Ele também não especificou quais gestos espera de Lula em relação às siglas de centro. Na entrevista, disse que o presidente precisa ter uma postura capaz de ampliar o apoio político.
O dirigente não descartou voltar a ocupar um ministério em um eventual novo mandato, embora tenha afirmado que essa possibilidade não está em seus planos atuais. Kassab foi ministro das Cidades durante o governo de Dilma Rousseff, do PT, e chefiou o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações na gestão de Michel Temer, do MDB.
“Não está no meu horizonte. Mas é claro que é muito honroso ser e não descarto voltar mais uma vez”, afirmou. A declaração mantém aberta a possibilidade de participação no governo, mas Kassab não vinculou diretamente um eventual cargo à negociação sobre o apoio do partido.
Na disputa presidencial, o PSD manteve neutralidade no primeiro turno. Na reta final, a maioria dos partidos do centrão apoiou Flávio Bolsonaro, do PL, contra Lula, enquanto a legenda de Kassab preservou sua posição. O presidente do PSD indicou que essa escolha pode ser usada nas conversas com o governo.
Ao avaliar a campanha, Kassab disse que o PT soube explorar as fragilidades do adversário e associou o resultado à preocupação de eleitores com uma volta do bolsonarismo. “O mérito do PT foi explorar as fragilidades do Flávio. A campanha do Lula mexeu bem com o medo das pessoas da volta do bolsonarismo”, comentou.
PSD sofreu perdas, mas elegeu governadores
O partido também enfrenta o impacto de perdas nas eleições deste ano. No Senado, a bancada deve cair de 13 para cinco cadeiras a partir de 2027. A sigla teve ainda derrotas em disputas por governos estaduais no Sul e no Sudeste, apesar de ter vencido em cinco estados.
No Paraná, o governador Ratinho Junior, do PSD, não conseguiu eleger seu escolhido para a sucessão, o ex-secretário estadual Sandro Alex. Ratinho havia desistido de concorrer à Presidência para priorizar a disputa estadual. Kassab atribuiu parte do resultado à demora na escolha do candidato: “Se o candidato estivesse em campo há mais tempo, teria mais chances”. A pré-campanha também foi marcada pela saída de Rafael Greca, que foi para o MDB, e Alexandre Curi, que se filiou ao Republicanos, em meio à indefinição sobre o nome apoiado pelo governador.
Kassab lamentou ainda a derrota do governador Mateus Simões, do PSD, em Minas Gerais. Simões havia assumido o governo com apoio de Romeu Zema, do Novo. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes, do PSD, perdeu no primeiro turno para Douglas Ruas, do PL. Ruas foi reconhecido como governador eleito após a Justiça Eleitoral anular os votos de Anthony Garotinho, do Republicanos.
O PSD contesta a decisão que impediu a realização do segundo turno e pretende recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta instância do Judiciário brasileiro. Kassab afirmou que o partido discorda do entendimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável pela Justiça Eleitoral. “Sendo revertida, Paes no mano a mano com o Douglas Ruas vai mostrar que é mais preparado”, disse.
Lyra ganha projeção dentro do partido
Entre os resultados positivos para a sigla, Kassab destacou a vitória da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, do PSD, sobre o ex-prefeito do Recife João Campos, do PSB, no primeiro turno. Ele a apontou como uma liderança de alcance nacional e afirmou que, se uma mulher chegar à Presidência nos próximos dez anos, “será ela”.
Além de Pernambuco, o PSD venceu em Sergipe, com Fábio Mitidieri; no Maranhão, com Eduardo Braide; no Amapá, com Dr. Furlan; e no Amazonas, com o senador Omar Aziz. Com esses resultados, a legenda elegeu cinco governadores.
Kassab também admitiu discutir uma proposta de anistia relacionada à tentativa de viabilizar a reeleição de Davi Alcolumbre, do União Brasil pelo Amapá, à presidência do Senado. Ele considerou válida a discussão diante da saída de Flávio Bolsonaro do país e da manutenção da inelegibilidade de Jair Bolsonaro.