O presidente do PSD, Gilberto Kassab, atribuiu a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial de 2026 e a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que iniciará o quarto mandato, a erros do candidato da direita e à capacidade da campanha petista de explorar essas fragilidades. Em entrevista ao jornal O Globo, Kassab também afirmou que o governo Lula já procurou o PSD e que uma aproximação mais ampla dependerá de sinais ao centro e de medidas econômicas.
Erros de campanha e comunicação
Na avaliação de Kassab, a escolha de Flávio Bolsonaro dividiu o eleitorado de centro e favoreceu Lula. O presidente do PSD disse que o senador começou a perder apoio em outubro, quando se tornou mais conhecido fora do Rio de Janeiro.
Entre os fatores que teriam afastado eleitores, Kassab citou a declaração de Flávio sobre mudanças na Constituição, que, segundo ele, “acabou assustando”. Também mencionou a rejeição ao “linguajar” do candidato e à “falta de postura nos debates”.
Kassab avaliou que o PT conseguiu explorar o receio de uma volta do bolsonarismo. Ele relacionou esse temor à estratégia eleitoral petista e afirmou que a campanha de Lula soube acionar o “medo” entre os eleitores.
O dirigente também apontou a comunicação digital como elemento relevante na disputa. Segundo ele, manifestações espontâneas nas ruas e a atuação do deputado federal André Janones (Rede-MG) reforçaram a importância desse tipo de comunicação durante a campanha.
PSD pode se aproximar do governo
Kassab disse que o PSD poderá estreitar relações com o novo governo se o Planalto der sinais de aproximação com o centro político e adotar medidas na área econômica. Segundo ele, o partido poderá ter uma “relação mais profunda” com a gestão Lula caso essas condições sejam atendidas.
O presidente do PSD afirmou que o governo já procurou a legenda. Ao ser questionado sobre uma possível mudança em relação ao mandato anterior, lembrou que, em 2023, o partido decidiu que “se o Planalto convidasse filiados, teria a nossa compreensão”. Naquele governo, o PSD comandou três ministérios sem se declarar oficialmente integrante da base.
Para Kassab, Lula precisará unir o país e ampliar seu apoio político, objetivo que, em sua avaliação, não foi alcançado no terceiro mandato. O dirigente disse que o presidente não deve deixar de honrar compromissos sociais, mas defendeu que a condução econômica fique a cargo de pessoas que transmitam confiança e equilíbrio fiscal.
Como exemplos, Kassab citou Antonio Palocci e Henrique Meirelles. Ele não afirmou que os dois ocuparão cargos no novo governo. Ao condicionar uma aproximação do PSD à adoção de medidas econômicas, resumiu: “Se medidas econômicas forem adotadas, estaremos mais próximos”.
Possível retorno a um ministério
Questionado se aceitaria integrar o governo como ministro, Kassab disse que a possibilidade não está em seus planos imediatos, mas não descartou voltar ao cargo. “Não está no meu horizonte, já fui de duas pastas. Mas é claro que é muito honroso ser e não descarto voltar mais uma vez”, afirmou.
A resposta mantém aberta a possibilidade de participação pessoal de Kassab, mas não representa um compromisso de que ele assumirá uma função no governo. O dirigente já ocupou dois ministérios, sem especificar na entrevista quais foram as pastas.
Corrupção e polarização permanecem no debate
Kassab discordou da avaliação de que a corrupção perdeu importância para o eleitorado. Ele comparou o clima do segundo turno ao de 2013, marcado, segundo sua descrição, por “indignação”, e alertou para “movimentos perigosos” caso os partidos não adotem um discurso mais firme contra a corrupção.
O presidente do PSD também afirmou que a polarização política não foi superada. Na eleição de 2026, Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, ficou em quinto lugar na disputa presidencial. Para Kassab, Caiado não conseguiu atrair eleitores que rejeitavam tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro, um sinal de que esse grupo não se concentrou em sua candidatura.

