A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva deve pressionar os ativos brasileiros no curto prazo, segundo analistas e uma pesquisa com investidores divulgada após a confirmação do resultado, na noite de domingo. As avaliações apontam para queda da Bolsa, alta do dólar e avanço dos juros futuros, diante de dúvidas sobre a condução das contas públicas e o crescimento da dívida.
No mercado após o fechamento, o EWZ — fundo negociado nos Estados Unidos que acompanha o índice MSCI Brazil — recuava quase 20%. A reação reflete a revisão de expectativas de investidores que, durante outubro, haviam incorporado aos preços a possibilidade de alternância de poder e de maior controle dos gastos públicos.
Pressão sobre ações e juros
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, avalia que a vitória de Lula deve levar o mercado a rever as apostas sobre a política fiscal. Segundo ele, a falta de maioria própria do presidente no Congresso também entra no cálculo dos investidores. A expectativa, afirma, é de uma semana de cautela, com o Ibovespa pressionado, o dólar em alta e os juros futuros subindo.
O principal receio apontado por Lima é que a dívida pública continue crescendo sem medidas consideradas suficientes para estabilizá-la. Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, prevê uma reação mais intensa: o Ibovespa poderia cair mais de 5% na abertura da semana. Se a venda de ações se intensificar, acrescenta, existe risco de acionamento do circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando a Bolsa registra uma queda acentuada.
O impacto tende a variar entre setores. Bancos estatais, como Banco do Brasil, e a Petrobras devem ficar no centro das atenções. Varejistas, construtoras, empresas dependentes de crédito ao consumidor e companhias mais endividadas são apontadas como mais vulneráveis a juros elevados. Também podem sofrer negócios ligados ao mercado de capitais, como corretoras e a B3.
Na outra ponta, exportadoras e empresas com receitas em dólar podem ter desempenho relativo melhor caso o real se desvalorize. Analistas citam companhias de mineração e do agronegócio entre as potencialmente beneficiadas pelo câmbio.
Investidores projetavam perdas
Uma pesquisa do Citi com investidores, realizada na sexta-feira, indica que parte do mercado já esperava uma reação negativa caso Lula vencesse. Dos entrevistados, 79,5% projetavam queda superior a 5% do Ibovespa. No câmbio, 63% estimavam desvalorização do real acima de 5%, enquanto 27,8% previam recuo entre 2% e 5%.
Nas taxas de juros, 67,1% esperavam que a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2029 subisse mais de 100 pontos-base. Outros 14,3% projetavam alta entre 50 e 100 pontos-base. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual.
Os estrategistas do Citi identificaram uma assimetria nas projeções: os cenários favoráveis aos ativos brasileiros previam movimentos mais moderados, enquanto as estimativas para uma vitória de Lula concentravam quedas mais expressivas. Para Gabriel Pinheiro, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, a reação também está ligada à reversão de posições montadas em outubro. Ele afirma que o Ibovespa subiu 7,7% no primeiro pregão após o primeiro turno e chegou a 209,6 mil pontos, enquanto o dólar recuou a R$ 5,00. Antes do primeiro turno, diz, o índice estava perto de 192 mil pontos e a moeda americana, em R$ 5,22.
Fiscal e incerteza política no radar
Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos, relaciona a mudança na percepção de risco também às pesquisas eleitorais. Segundo ele, as 13 pesquisas consideradas em sua análise apontavam Flávio Bolsonaro à frente, com vantagem média de 2,4 pontos percentuais. Em uma simulação que considerou erros correlacionados entre institutos e uma vitória hipotética de Lula por 50,5%, a probabilidade de todas indicarem a direção contrária seria de 3,74%. Mendes ressalva que o resultado depende das premissas do modelo e não representa a probabilidade real de vitória.
O economista também menciona a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de prorrogar a votação até as 19h. Embora, segundo ele, tenha sido esclarecido depois que urnas já fechadas não seriam reabertas, Mendes avalia que a mudança durante o processo eleitoral acrescentou incerteza sobre previsibilidade das regras e segurança jurídica.
Para o Citi, a trajetória fiscal seguirá como principal referência para os preços dos ativos brasileiros. As primeiras sinalizações sobre a equipe econômica, o controle das contas e a articulação com o Congresso podem influenciar a duração da reação negativa. O Bradesco BBI, por sua vez, reduziu sua recomendação para ações brasileiras de acima da média para neutra. O banco citou a valorização de aproximadamente 13% do MSCI Brazil em dólares durante outubro e a diminuição do desconto das ações em relação à média histórica.
O BBI estima que a dívida bruta do país pode passar de 83,6% para 88,2% do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos. O banco reduziu a exposição a empresas como Banco do Brasil, Petrobras, B3, Cogna e Cyrela e passou a privilegiar exportadoras e companhias com receitas mais previsíveis, entre elas Embraer, Suzano e WEG.
A reação inicial, porém, não determina necessariamente o desempenho dos ativos durante todo o mandato. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, afirma que, após a eleição de 2022, a Bolsa recuperou terreno quando o governo apresentou medidas fiscais e reduziu parte das incertezas. Para os analistas, a condução da política econômica e os sinais sobre responsabilidade fiscal serão determinantes para o comportamento do mercado nos próximos meses.

