Em agosto, a pedido da Finlândia, a Suécia enviou aviões de combate e um navio de guerra para ajudar a patrulhar o espaço aéreo finlandês próximo à fronteira com a Rússia e o Golfo da Finlândia. A operação buscou responder a incursões aéreas russas e a drones que se desviaram de operações ucranianas; os meios suecos ficaram sob comando finlandês e seguiram as regras de engajamento do país.
A atuação é um exemplo do avanço na coordenação militar entre Finlândia e Suécia, os dois integrantes mais recentes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Nos últimos quatro anos, os cinco países nórdicos — Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia — ampliaram a cooperação com exercícios conjuntos, planos de defesa de longo prazo, integração de comandos e facilitação do trânsito militar entre fronteiras.
Esse arranjo regional pode reforçar a capacidade de dissuasão da aliança, em um cenário de aumento das ameaças russas e de pressão dos Estados Unidos para que os europeus assumam maior responsabilidade pela defesa do continente. A experiência nórdica também tem sido apontada como referência para países próximos às fronteiras da Otan no Báltico e no mar Negro.
Integração nórdica ganhou impulso
A cooperação nórdica assumiu sua forma institucional atual em 2009, quando restrições orçamentárias levaram os cinco países a buscar formas de reduzir custos militares. Finlândia e Suécia, então fora da Otan, juntaram-se a Dinamarca, Islândia e Noruega na criação da Cooperação de Defesa Nórdica (NORDEFCO). Entre os primeiros resultados esteve o treinamento conjunto de forças aéreas no espaço pouco congestionado do norte da Finlândia, da Noruega e da Suécia.
A iniciativa perdeu força diante de obstáculos burocráticos e de diferenças entre países membros da Otan e países que não faziam parte da aliança. Depois da invasão russa da Ucrânia em 2014, porém, parte dos governos passou a tratar a cooperação como uma necessidade de segurança, e não apenas como uma forma de economizar. Finlândia e Suécia estabeleceram uma parceria militar que incluía planejamento para situações de guerra; a Noruega também ampliou a cooperação operacional com os dois vizinhos.
Em 2020, os três países assinaram uma declaração de intenções e intensificaram exercícios, troca de informações sobre ameaças e discussões sobre seus planos nacionais de defesa. A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, acelerou a integração. Finlândia e Suécia ingressaram na Otan, e os países nórdicos passaram a tratar Moscou como uma ameaça urgente à segurança da região e da Europa.
Em 2023, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia começaram a desenvolver o Conceito Nórdico de Poder Aéreo, que prevê a atuação conjunta de uma força com 250 aviões de combate avançados. A Dinamarca também se comprometeu a enviar militares para o grupo de forças terrestres da Otan na Finlândia, liderado pela Suécia e com presença rotativa no norte finlandês e sueco. No ano seguinte, os cinco países aprovaram a Visão NORDEFCO 2030, com planos para operações alinhadas às prioridades nacionais e da aliança.
A divisão de funções regionais também se consolidou: a Finlândia comanda operações terrestres, a Noruega abriga o comando regional de operações aéreas, a Suécia funciona como centro logístico e área de trânsito, e a Dinamarca sedia um comando regional de operações especiais. Países como França, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos também realizam operações e exercícios na região, além de contribuir com capacidades como inteligência, reconhecimento e vigilância.
Báltico e mar Negro no radar
O modelo nórdico pode orientar iniciativas em outras áreas da fronteira oriental da Otan. No Báltico, Estônia, Letônia e Lituânia compartilham preocupações com a Rússia, mas a cooperação militar entre elas foi limitada. Movimentos recentes incluem a compra conjunta do sistema de defesa aérea IRIS-T por Estônia e Letônia, a coordenação dos sistemas de foguetes HIMARS pelos três países e a construção da Linha de Defesa do Báltico, projetada para canalizar, atrasar e bloquear uma invasão terrestre.
Uma cooperação mais ampla poderia incluir planejamento de defesa coordenado, exercícios conjuntos e compartilhamento de estoques de mísseis. Também poderia integrar lançadores HIMARS, contribuições nacionais à Linha de Defesa do Báltico e o uso de embarcações não tripuladas para monitorar o mar e a infraestrutura submarina. A proposta inclui a Polônia, que mantém parceria de defesa com a Lituânia, mas tem participação limitada na defesa báltica. Um mecanismo permanente de consultas poderia ajudar a tratar divergências sobre o corredor de Suwalki, ligação estratégica entre os países bálticos e a Europa continental.
No mar Negro, Bulgária, Romênia e Turquia enfrentam dificuldades para cooperar por avaliarem de formas diferentes a ameaça russa. Ainda assim, os três países iniciaram em julho de 2024 uma operação conjunta de remoção de minas. A iniciativa levou à criação de uma missão para proteger infraestrutura energética, redes de telecomunicações e gasodutos submarinos. Exercícios mais frequentes entre as forças aéreas também são apontados como um caminho para ampliar a interoperabilidade.
Pressão por uma Otan mais europeia
A cooperação regional se relaciona à proposta de uma Otan em que os europeus liderem a defesa convencional do continente, enquanto os Estados Unidos mantenham um papel de apoio, incluindo a dissuasão nuclear. Para isso, os países precisariam combinar planejamento, compras militares, comando e mobilidade transfronteiriça. O exemplo nórdico inclui ainda a colaboração com os Estados Unidos: Finlândia e Noruega monitoram atividades do lado russo de suas fronteiras, e a Finlândia permite que aviões americanos de inteligência de sinais usem seu espaço aéreo para observar a península de Kola.
O apoio americano à cooperação regional, contudo, contrasta com as declarações do presidente Donald Trump sobre assumir o controle da Groenlândia, cenário visto como uma ameaça à solidariedade nórdica. Em setembro, Washington, Copenhague e Nuuk assinaram um acordo sobre a ilha. O fortalecimento da segurança no Ártico e o incentivo a parcerias regionais são apresentados como formas de ampliar a capacidade dos europeus de responder a ameaças e de tornar mais efetiva a defesa coletiva da Otan.

