Small caps seguem no radar de investidores após eleições, com atenção aos riscos


As small caps ainda podem oferecer oportunidades na Bolsa brasileira, apesar da valorização registrada desde o primeiro turno das eleições de 2026. A avaliação foi feita por João Daronco, head de ações da Suno Research, durante uma transmissão sobre a apuração do segundo turno, em 25 de outubro, com base no potencial de empresas menores e na expectativa para os juros.

Small caps são companhias de menor valor de mercado e, em geral, mais expostas à economia doméstica. Segundo Daronco, parte dessas ações subiu perto de 50% depois do primeiro turno, mas o segmento ainda pode ter oportunidades relativamente mais abundantes do que o Ibovespa, índice que reúne ações negociadas na Bolsa brasileira.

Empresas menores sentem mais o efeito dos juros

As taxas de juros influenciam as small caps porque afetam tanto o custo de financiamento das empresas quanto as perspectivas de crescimento. Companhias que dependem de crédito pagam mais para financiar operações e projetos quando os juros estão elevados. Nesse ambiente, aplicações de renda fixa também se tornam mais atrativas, o que pode reduzir o interesse por ativos considerados mais arriscados, como ações.

Se os juros caem, o financiamento tende a ficar mais barato. As expectativas de crescimento das empresas podem melhorar e, com elas, os preços de suas ações. Daronco afirmou que o índice de small caps tem participação maior de companhias voltadas ao mercado brasileiro, em comparação com empresas do Ibovespa ligadas a exportações e commodities.

“É um índice muito mais doméstico do que voltado para o exterior, do que voltado para exportações. Então até por isso que se beneficiam de juros mais baixos”, disse o analista. A composição mais doméstica ajuda a explicar por que essas empresas podem reagir de forma mais intensa às perspectivas para a economia brasileira e para as taxas de juros.

Na avaliação de Daronco, as principais ações do Ibovespa já acumularam valorização expressiva, enquanto o segmento de menor capitalização ainda oferece mais oportunidades em termos relativos. A recuperação recente, porém, não significa que todas as empresas desse grupo tenham o mesmo potencial ou que seus papéis necessariamente continuarão subindo.

Reação eleitoral não garante trajetória dos juros

Daronco também alertou para o risco de tomar decisões de investimento com base apenas na reação imediata do mercado ao resultado das eleições. Em sua avaliação, uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, poderia pressionar os juros futuros. Já uma vitória de Flávio Bolsonaro, do PL, poderia favorecer a redução dessas taxas.

Juros futuros são taxas negociadas no mercado que refletem expectativas sobre o custo do dinheiro em períodos à frente. Os cenários mencionados pelo analista são projeções, não movimentos garantidos. A trajetória das taxas também depende da inflação, da política fiscal, da atividade econômica e das decisões do Banco Central.

Por isso, uma reação positiva ou negativa das ações após a eleição não basta para avaliar se uma empresa está bem posicionada. Um dos pontos que o investidor precisa considerar, segundo Daronco, é quanto das expectativas já foi incorporado aos preços. “Será que grande parte das expectativas já não estão no preço?”, questionou, ao comentar a possibilidade de valorização das empresas em um cenário visto como mais favorável pelo mercado.

Fundamentos e horizonte de investimento

A análise dos fundamentos envolve examinar as condições financeiras e operacionais de uma companhia, como lucro, endividamento, geração de caixa e capacidade de crescer. Esses fatores podem ajudar a distinguir mudanças efetivas na situação da empresa das oscilações de curto prazo causadas por notícias e expectativas — movimentos que Daronco descreveu como ruído de mercado.

O analista defendeu que investidores adotem um horizonte superior a quatro anos e avaliem como as empresas poderiam atravessar períodos econômicos adversos. “Pensar o que realmente pode acontecer de pior, quais empresas sobrevivem a esse pior e quanto elas valem num cenário normalizado”, afirmou.

Assim, a possibilidade de uma queda dos juros ou a reação à eleição não deve ser o único critério para escolher ações. A avaliação proposta por Daronco considera a capacidade de cada companhia de resistir a cenários difíceis e se o preço atual do papel oferece uma oportunidade. A valorização acumulada por algumas small caps desde o primeiro turno, por si só, não responde a essas questões.

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