O Ibovespa recuava 0,95%, aos 169.360 pontos, às 12h40 desta quinta-feira, pressionado pela queda das bolsas dos Estados Unidos e pela preocupação com as contas públicas brasileiras. A baixa ocorria apesar da alta de 2,4% do minério de ferro em Dalian, na China, e do recorde de produção da Petrobras no terceiro trimestre; o recuo do petróleo também pesava no cenário.
Índice oscila e perde força
Durante a manhã, o principal índice da B3 chegou a subir 0,23% e atingiu a máxima de 171.402,97 pontos, perto da abertura, em 171.006,10 pontos. Depois, mudou de direção e marcou mínima de 169.156 pontos. No pregão anterior, o Ibovespa já havia caído 2,68%, no terceiro recuo consecutivo, em meio às apreensões com a política fiscal.
O ambiente externo também limitava o apetite por ações. Em Nova York, os índices recuavam após as altas recentes, enquanto resultados de empresas de tecnologia, entre elas Alphabet e Samsung, pressionavam o setor. Segundo nota da consultoria 4Intelligence, esses balanços aumentaram a procura por títulos do Tesouro dos Estados Unidos, cujas taxas caíam.
Na agenda internacional, investidores avaliavam dados divulgados depois de o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) manter os juros inalterados na véspera, como esperado. O Produto Interno Bruto (PIB), medida da atividade econômica, cresceu 3,4% no terceiro trimestre, acima da previsão de 3,2%.
O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês), indicador de inflação dos Estados Unidos, subiu 0,5% em setembro ante agosto e avançou 3,6% em 12 meses. Os dois resultados ficaram dentro das expectativas do mercado.
Fiscal concentra preocupação
No Brasil, a cautela dos investidores se concentra na condução das contas públicas e na falta de indicações claras sobre a agenda econômica do próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O mercado também aguarda definições sobre os nomes da equipe econômica, especialmente para o Ministério da Fazenda. Entre os dados previstos para o dia estão o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) e informações fiscais.
“Seria natural ver um pouco de correção, o mercado aproveitando alguns preços. Não vemos isso”, afirmou Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3. Para ele, cresce a preocupação com a gestão das contas públicas. “O governo não está tratando os gastos com prioridade, mas só pensando em aumentar receitas, via IOF, por exemplo. Isso traz um sentimento ruim”, disse. IOF é o Imposto sobre Operações Financeiras.
Nesta quinta-feira, o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, negou que o governo esteja discutindo a cobrança de IOF sobre títulos de investimento atualmente isentos. Em entrevista coletiva, ele afirmou que o governo avalia há algum tempo alternativas para tributar esses papéis, com o objetivo de reduzir distorções e promover isonomia entre instrumentos financeiros. Leal disse, porém, que a melhor forma de fazer isso ainda precisa ser estudada e que não há medida definida neste momento.
Para Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos, a incerteza domina o mercado, que aguarda sinais capazes de estabilizar os ativos. Ele relacionou a expectativa tanto a ajustes técnicos após as perdas quanto à falta de clareza sobre a política econômica, sobretudo a fiscal. “O mercado aguarda ansiosamente sinais de como o governo vai endereçar a pauta econômica, se será de forma mais técnica ou se será política”, afirmou.
Eduardo Gonçalves, gestor de portfólio da Aurum Wealth Management, disse que não espera uma decisão antes de dezembro e apontou a ausência de medidas concretas para controlar os gastos e estabilizar a dívida. Thiago Pedroso, responsável pela área de renda variável da Criteria, também afirmou que a capacidade de conter o endividamento público e recuperar a confiança dos investidores está no centro das preocupações. Sem uma estratégia clara, disse, os juros podem permanecer elevados, o câmbio pode sofrer pressão e a recuperação da bolsa pode ficar limitada.
Produção da Petrobras e balanço da Vale
A Petrobras informou na véspera que produziu 3,51 milhões de barris de óleo equivalente por dia no terceiro trimestre de 2026, recorde para a companhia. O volume ficou 11,8% acima do registrado no mesmo período de 2025. A queda do petróleo, contudo, servia de contraponto ao dado de produção para as ações da empresa.
Após o fechamento da B3, a Vale divulgará o balanço do terceiro trimestre. A média das estimativas do Prévias Broadcast aponta lucro de US$ 1,58 bilhão, 41% abaixo do resultado de um ano antes. Para o Ebitda — indicador de resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização —, a projeção é de US$ 3,52 bilhões, queda de 19% na comparação anual. A receita líquida estimada, de US$ 10,31 bilhões, está próxima dos US$ 10,4 bilhões registrados no terceiro trimestre de 2025.
Oliveira, da Blue3, afirmou que a correção das bolsas norte-americanas reforçava o quadro desfavorável para o Ibovespa. Ele também disse que a falta de notícias sobre a agenda econômica alimenta a percepção de que não haverá mudanças. A consultoria 4Intelligence, por sua vez, avaliou que o risco Brasil segue elevado e que, nesse cenário, o real tende a continuar depreciado, enquanto os juros permanecem pressionados.

