Trimestre recorde do Goldman ajuda Wall Street a recuperar confiança


Os seis maiores bancos dos Estados Unidos somaram US$ 100 bilhões em lucro no primeiro semestre de 2026, pela primeira vez nesse período, impulsionados por receitas recordes em diferentes áreas e pelo aumento das operações nos mercados financeiros. O desempenho ocorre após a eleição presidencial de 2024 e contrasta com as dificuldades enfrentadas por grandes gestoras de private equity, que investem em empresas fora da bolsa.

Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Morgan Stanley, Wells Fargo, Bank of America e Citigroup também tiveram forte valorização na bolsa: as ações do grupo subiram, em média, quase 80% desde a eleição. O resultado marca uma mudança de cenário para Wall Street, depois de anos em que os bancos perderam espaço para empresas de mercados privados na disputa por negócios, profissionais e capital.

Mercados voláteis favorecem os bancos

O Goldman Sachs atingiu sua maior cotação histórica após registrar mais de US$ 2 bilhões em receita com negociação de ações, acima de seu recorde anterior. JPMorgan, Morgan Stanley e Wells Fargo alcançaram o maior lucro trimestral de suas histórias. O Bank of America, por sua vez, teve o melhor primeiro semestre já registrado.

No primeiro mandato de Donald Trump, os seis maiores bancos americanos chegaram, pela primeira vez, a US$ 100 bilhões de lucro em um ano. Agora, com Trump novamente na Presidência, o setor atingiu esse patamar em apenas seis meses.

Parte do impulso veio da volatilidade. Anúncios inesperados de tarifas e o bombardeio do Irã contribuíram para adiar cortes de juros e elevar a atividade nas mesas de negociação. Ao mesmo tempo, a inflação persistente e a guerra no Oriente Médio mantiveram os mercados em movimento.

O avanço da inteligência artificial (IA), que pode afetar empregos de escritório, também abriu oportunidades para os bancos. Empresas que buscam financiar investimentos podem recorrer tanto ao mercado de ações quanto ao de dívida. “O impulso da IA significa que mais empresas vão recorrer tanto ao mercado de ações quanto ao de dívida”, afirmou Mahesh Saireddy, sócio do Goldman Sachs, à Bloomberg TV.

Para Sachin Khajuria, ex-sócio da gestora Apollo e ex-integrante do Morgan Stanley, os bancos voltaram a encontrar oportunidades em meio a uma “policrise”, que reúne desafios geopolíticos e mudanças provocadas pela IA. “Os bancos de Wall Street recuperaram seu mojo”, disse. O termo, em inglês, se refere à confiança e ao impulso que o setor havia perdido.

Oferta de ações anima Wall Street

A retomada também aparece no aumento de ofertas de ações, incluindo aberturas de capital, conhecidas pela sigla IPO. A estreia da SpaceX, avaliada em US$ 86 bilhões, ajudou a aquecer o mercado. Investidores compraram ações apesar dos prejuízos da empresa, apostando na visão de Elon Musk para um conglomerado que inclui inteligência artificial, foguetes e redes sociais.

O Morgan Stanley liderou a operação e recebeu cerca de US$ 100 milhões. Seu presidente-executivo, Ted Pick, apareceu em uma videochamada com Musk no pregão do banco. Poucos dias depois, o JPMorgan celebrou outra listagem de grande porte, a da fabricante sul-coreana de chips de IA SK Hynix, iluminando sua sede em Manhattan com uma bandeira da Coreia do Sul.

O entusiasmo, porém, depende da continuidade das operações. Notícias de que a OpenAI poderia adiar seu IPO derrubaram ações de vários bancos no mês anterior. Dinakar Singh, ex-sócio do Goldman Sachs e fundador da gestora Axon Capital, afirmou que os bancos de mercado de capitais se tornaram “uma aposta em IA”.

Receitas diversificadas e regras mais flexíveis

Os ganhos não vieram apenas das negociações. No JPMorgan, que registrou o maior lucro trimestral da história do sistema bancário americano, áreas como banco comercial e de investimento, varejo e gestão de patrimônio e ativos tiveram receita recorde. Jamie Dimon completou 20 anos à frente da instituição e pretende permanecer no cargo por mais algum tempo.

Wells Fargo e Citigroup também avançaram. Depois de ficar sujeito por anos a uma restrição de crescimento imposta pelo Federal Reserve, o banco central americano, o Wells Fargo expandiu seu balanço em 15% no último ano. No Citi, quatro das cinco principais divisões superaram as expectativas no segundo trimestre.

As mudanças na regulação também podem beneficiar o setor. Indicados por Trump vêm promovendo um afrouxamento de regras, e propostas do governo são vistas como favoráveis aos bancos. Dimon elogiou o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, e a vice-presidente de supervisão, Miki Bowman, por revisarem as normas adotadas ao longo de duas décadas. Para ele, a regulação deveria tornar o sistema mais seguro, em vez de apenas ampliar a burocracia.

O Morgan Stanley aproveitou capital liberado após reguladores flexibilizarem uma regra importante no ano passado para reforçar sua mesa de negociação. Com isso, obteve mais de US$ 11 bilhões em receita com ações no primeiro semestre de 2026, acima do total registrado em qualquer ano completo antes de 2024.

Enquanto os grandes bancos recuperam espaço, gestoras como Blackstone, KKR, Apollo Global Management e Carlyle Group acumulam perdas. Para Euan Rellie, cofundador da assessoria BDA Partners, a mudança também alterou a atratividade relativa das carreiras. “Você ganha mais do que dinheiro suficiente no banco, enquanto o private equity está mais difícil do que jamais foi”, disse.

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