Após as eleições intercalares nos Estados Unidos, Donald Trump entrou no período final de seu mandato com os democratas prestes a assumir o controle da Câmara e do Senado. Sem perspectiva de disputar outra eleição presidencial, o republicano terá menos espaço para aprovar medidas internas e poderá concentrar sua atuação na política externa. O risco, segundo a análise apresentada no texto, é que a pressão política e a falta de opções diplomáticas viáveis o levem a decisões de alto impacto, sobretudo em relação ao Irã e a Cuba.
Um segundo período de mandato enfraquecido
Presidentes costumam ser chamados de “pato manco” quando deixam de precisar disputar eleições e perdem força para aprovar sua agenda. Para quem está no segundo mandato, essa fase pode começar após as eleições intercalares e se estender até o fim do governo. No caso de Trump, pode durar mais de dois anos. O texto o descreve como o primeiro presidente em um século a cumprir dois mandatos não consecutivos e, por isso, a enfrentar um segundo período desse tipo.
A perda de controle do Congresso pode limitar iniciativas internas e ampliar a exposição do presidente a investigações e ameaças de impeachment. Com os democratas no comando das duas Casas, a apuração de negócios da família Trump pode aumentar a sensação de pressão na Casa Branca. Ainda assim, o Congresso tem poder limitado sobre a condução cotidiana da política externa pelo presidente.
Em períodos de baixa influência doméstica, outros presidentes recorreram a iniciativas internacionais. Bill Clinton tentou avançar em um acordo entre israelenses e palestinos no fim de seu governo. Barack Obama concluiu o acordo nuclear com o Irã e normalizou as relações com Cuba depois das eleições intercalares de 2014. Também houve decisões militares: George H. W. Bush enviou tropas à Somália em 1992 para aliviar a fome, enquanto George W. Bush ampliou as forças no Iraque em 2007.
Os resultados foram variados. As negociações de Clinton fracassaram; os avanços diplomáticos de Obama duraram pouco; e a intervenção na Somália ajudou a evitar a fome, mas não resolveu as causas do conflito. O reforço militar no Iraque reduziu a violência no curto prazo, sem estabilizar o país de forma permanente. Essas iniciativas, segundo o texto, foram debatidas e planejadas com participação de integrantes do governo e especialistas, e tiveram objetivos definidos.
Diplomacia com menos alternativas
Trump já recorreu a várias iniciativas de política externa em seu primeiro mandato: retirou os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã de 2015, reuniu-se três vezes com o líder norte-coreano Kim Jong Un, substituiu o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte por um pacto regional e facilitou a normalização das relações entre Israel e alguns países árabes. Também deixou uma série de acordos internacionais.
Desde que voltou ao cargo, em 2025, Trump presidiu um cessar-fogo em Gaza e a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. O texto avalia que algumas das alternativas diplomáticas mais evidentes já foram usadas ou perderam força. A promessa de tomar a Groenlândia, por exemplo, terminou em um acordo que amplia a presença militar americana no território. Já o chamado “Conselho de Paz”, apresentado por Trump como rival do Conselho de Segurança das Nações Unidas, teria perdido apelo entre outros países.
Uma reunião com o presidente russo, Vladimir Putin, e o líder chinês, Xi Jinping, poderia render ao presidente imagens de cooperação entre grandes potências, mas não necessariamente um acordo concreto. Rússia e China, segundo a análise, demonstraram pouco interesse na proposta de tratado trilateral sobre armas nucleares feita por Trump e não indicaram disposição para pressionar o Irã. O texto também considera improvável que Putin aceite compromissos sobre a Ucrânia ou que Xi aceite restrições à atuação chinesa em relação a Taiwan.
Irã e Cuba concentram os riscos
O Irã é apontado como um dos principais focos de preocupação. O New York Times informou, segundo o texto, que o governo Trump e Israel elaboraram planos para novos ataques ao país após as eleições intercalares. Uma tentativa de forçar Teerã a se render poderia ameaçar a economia global e a estabilidade dos aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico.
Uma escalada também poderia levar o Irã a intensificar ataques contra embarcações comerciais e aliados do Golfo, além de rejeitar iniciativas diplomáticas. O envio de tropas americanas à ilha de Kharg seria uma opção mais radical, mas poderia ser impopular entre apoiadores de Trump, que já enfrentam preços elevados associados à guerra. Um novo conflito, diz o texto, poderia provocar uma crise econômica mundial.
Cuba é outro possível alvo. Trump impôs um embargo total à ilha durante a maior parte de 2026, enquanto o país enfrentava dificuldades econômicas e períodos de falta de eletricidade. Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional, tem a derrubada do governo cubano como prioridade. A ação também estaria alinhada à chamada “Doutrina Donroe”, que afirma a primazia dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
Uma intervenção poderia exigir poucos recursos militares, mas uma mudança de regime pela força raramente funciona e pode produzir consequências imprevisíveis, conforme o cientista político Alexander Downes. No caso cubano, uma delas poderia ser um novo fluxo de refugiados para os Estados Unidos. O texto também aponta que Trump poderia direcionar sua atuação externa a interesses financeiros da família. Entre os exemplos citados estão um avião oferecido pelo emir do Qatar, um investimento de US$ 2 bilhões de um fundo liderado pelo príncipe herdeiro saudita e lucros com empresas de criptomoedas. Segundo a revista The New Yorker, a família Trump teria obtido US$ 4 bilhões com esse tipo de negócio.
Uma alternativa seria o presidente reduzir sua atuação internacional e se concentrar em iniciativas internas, como a remodelação de espaços em Washington e na Casa Branca, indultos e ações contra adversários políticos. Diante dos riscos de uma escalada no Irã ou de uma intervenção em Cuba, a inação na política externa é apresentada como um cenário menos perigoso para os anos finais do mandato.

