A Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, sofreu um ataque hacker na quinta-feira (29), que desviou cerca de US$ 6,3 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 34 bilhões. A empresa suspendeu temporariamente os saques e afirmou que cobrirá as perdas com recursos próprios e do Fundo de Ativos Seguros para Usuários (SAFU, na sigla em inglês), sem informar quanto do valor atingido pertencia a clientes.
Registros de transações analisados por especialistas indicam que a maior parte dos recursos saiu dos sistemas em cerca de 20 minutos, por volta das 17h, no horário de Brasília. A Binance manteve os depósitos funcionando e disse esperar retomar os saques em até 48 horas, após concluir mudanças no sistema de segurança usado para essas operações.
O episódio é apontado como o maior crime já registrado no setor de criptomoedas. A movimentação também repercutiu nos preços: na sexta-feira (30), as principais moedas digitais recuaram, e o Bitcoin caiu quase 4%.
Investigação busca identificar a falha
As apurações ainda estão em andamento. A principal hipótese levantada pela Binance é que o ataque tenha começado no computador de um engenheiro de DevOps, área que reúne equipes de desenvolvimento e operações. A partir dessa máquina, o invasor teria acessado um contêiner de serviços da companhia e conseguido executar saques sem autorização.
A empresa americana TRM Labs, especializada em rastrear criptomoedas, afirmou que os criminosos comprometeram o sistema responsável por aprovar transferências. A Binance disse não ter encontrado sinais de que as chaves privadas de suas carteiras tenham sido expostas. A companhia atribuiu o incidente a “múltiplos fatores” e relatou ter identificado outras falhas de segurança que também poderiam ter sido exploradas.
A corretora informou que divulgará um relatório mais detalhado quando confirmar a causa raiz do ataque. Enquanto isso, colabora com autoridades de diferentes países, incluindo o FBI e o Serviço Secreto dos Estados Unidos.
Sobre a autoria, a TRM Labs e a Chainalysis, outra empresa americana do setor, apontaram semelhanças entre o ataque e ações anteriores de hackers ligados à Coreia do Norte. A comparação inclui a invasão à corretora Bybit, em 2025, atribuída pelo FBI a criminosos norte-coreanos. Para a TRM Labs, o mesmo grupo pode estar envolvido no caso da Binance.
Parte dos ativos foi bloqueada
Do total desviado, cerca de US$ 3 bilhões, ou R$ 16,2 bilhões, já foram localizados. Uma parcela foi bloqueada com o apoio de outras empresas do setor. O destino dos US$ 3,3 bilhões restantes, equivalentes a R$ 17,8 bilhões, ainda não foi totalmente esclarecido.
Os bloqueios foram possíveis porque parte dos recursos estava em stablecoins, criptomoedas projetadas para manter um preço estável, geralmente pareado ao dólar. Algumas dessas moedas podem ser congeladas pelas empresas emissoras, que impedem novas movimentações. A medida, porém, não significa que os valores tenham sido devolvidos à Binance: ela apenas dificulta que os criminosos os utilizem.
A Tether congelou quase US$ 1,57 bilhão, cerca de R$ 8,5 bilhões. A Circle bloqueou mais de US$ 800 milhões, ou R$ 4,3 bilhões, e a Ripple travou aproximadamente US$ 200 milhões, equivalentes a R$ 1,1 bilhão. Segundo a Reuters, a World Liberty Financial, empresa de criptomoedas ligada ao presidente americano Donald Trump e à família dele, também participou das ações.
Já o Bitcoin e o Ether apresentam mais dificuldades para bloqueio, pois não têm uma empresa central que possa impedir transferências. Segundo a TRM Labs, cerca de US$ 2,4 bilhões nessas duas moedas, aproximadamente R$ 13 bilhões, podem estar fora do alcance imediato das medidas. Os ativos poderiam ser retidos em situações específicas, como uma tentativa de envio para uma corretora disposta a interromper a operação.
Binance tem US$ 162,8 bilhões sob custódia
Fundada em Xangai, na China, em 2017, a Binance permite comprar, vender e guardar ativos digitais. De acordo com o relatório anual de 2025 da empresa, a plataforma tinha 335 milhões de usuários cadastrados e mantinha sob custódia cerca de US$ 162,8 bilhões em criptomoedas, o equivalente a R$ 879 bilhões.
A Binance não detalhou quanto dos ativos atingidos pelo ataque pertencia a clientes. A companhia afirmou que as perdas serão cobertas pelo SAFU e por fundos corporativos, mas a suspensão dos saques permanece condicionada à conclusão da reformulação do sistema de segurança. A empresa declarou, em comunicado publicado no X, que espera restabelecer o serviço em até 48 horas.

