A Vale registrou lucro líquido atribuível aos acionistas de US$ 1,255 bilhão no terceiro trimestre de 2026, queda de 53% em relação a um ano antes. Divulgado na noite de quinta-feira (29), o balanço trouxe geração de caixa acima das projeções e manutenção das estimativas de produção, mas também mostrou pressão sobre os preços do minério de ferro e custos.
O Ebitda ajustado pro forma — indicador de resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização — somou US$ 3,5 bilhões. O valor caiu cerca de 14% ante o segundo trimestre e 20% na comparação anual, principalmente devido aos preços realizados mais baixos do minério de ferro e à pressão sobre custos. Ainda assim, ficou praticamente em linha com as estimativas de XP, Itaú BBA, Bradesco BBI, Morgan Stanley e JPMorgan.
O lucro líquido decepcionou parte do mercado. Além da queda na comparação anual, o resultado foi afetado por perdas contábeis de ativos, despesas relacionadas a Brumadinho, resultado mais fraco de equivalência patrimonial e efeitos financeiros.
Geração de caixa sustenta o balanço
O fluxo de caixa livre recorrente alcançou US$ 1,4 bilhão, enquanto o fluxo de caixa operacional chegou a US$ 2,5 bilhões. Os dois indicadores superaram as projeções de diversas instituições. A dívida líquida expandida recuou para US$ 16,4 bilhões, dentro da faixa de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões perseguida pela companhia.
O Bradesco BBI apontou a geração de caixa como o principal aspecto positivo do trimestre. Segundo o banco, o resultado foi favorecido por incentivos fiscais, liberação de capital de giro e liquidação de derivativos. A instituição calcula que o fluxo de caixa livre recorrente corresponde a um rendimento anualizado próximo de 12%.
O Morgan Stanley também destacou o fluxo de caixa operacional de US$ 2,5 bilhões, considerado significativamente superior às estimativas do mercado. Para os analistas da instituição, esse resultado pode contribuir para uma reação positiva das ações após a divulgação do balanço.
Minério de ferro mantém pressão sobre a produção
A divisão de minério de ferro continuou no centro das preocupações. A produção somou 88,4 milhões de toneladas no trimestre, recuo de 6% em um ano. A queda refletiu principalmente a menor disponibilidade de minério em Serra Norte, ativo considerado um dos mais rentáveis da Vale.
O preço realizado do minério caiu para US$ 85,1 por tonelada, cerca de 10% abaixo do trimestre anterior. Além da piora no mix de produtos, o resultado foi pressionado por ajustes FOB — sigla para o preço da mercadoria e os custos até sua saída do local de origem — e pela redução dos prêmios pagos por qualidade.
O Goldman Sachs considera a situação de Serra Norte uma preocupação para 2027. A exaustão mais acelerada do ativo e a maior dependência de compras de minério de terceiros levantam dúvidas, segundo os analistas, sobre a capacidade de manter volumes e rentabilidade. O banco também aponta o risco de deterioração do mix, com pressão sobre as margens.
Apesar da fraqueza operacional, a Vale manteve sua projeção de produção de minério para 2026, na faixa de 335 milhões a 345 milhões de toneladas. O Bradesco BBI observou que a empresa sinaliza um resultado próximo ao piso da faixa, o que implica produção de cerca de 93 milhões de toneladas no quarto trimestre.
Cobre e custos dividem avaliações
A divisão de metais básicos voltou a ser um destaque positivo. O Ebitda da Vale Base Metals ficou próximo de US$ 1,1 bilhão, alta superior a 60% em relação ao mesmo período de 2025. O cobre respondeu pelo principal impulso, com preços realizados mais elevados e créditos de subprodutos. Seu Ebitda chegou perto de US$ 1 bilhão, acima das estimativas do mercado.
XP e Goldman Sachs atribuíram a surpresa positiva do cobre aos preços realizados, que compensaram parcialmente a queda de produção provocada pela manutenção programada em Sossego. A Vale manteve as projeções de cobre e níquel para 2026 e indicou que ambas as commodities devem terminar o ano na metade superior das respectivas faixas.
Nos custos, o custo caixa C1 — medida do gasto em dinheiro para produzir uma tonelada de minério — ficou em US$ 23,1 por tonelada, abaixo do esperado por parte dos analistas. O frete marítimo chegou a US$ 22,8 por tonelada, mas permaneceu bem abaixo da rota de referência Brasil-China, em razão do programa de proteção contra oscilações de preços e dos contratos de longo prazo da companhia.
A XP avalia que um câmbio mais favorável e ganhos de eficiência podem aliviar custos nos próximos trimestres. O Goldman Sachs mantém uma visão mais cautelosa e cita diesel, frete e mudanças no mix como fatores que podem pressionar os custos em 2027, especialmente se houver redução dos subsídios ao diesel no Brasil.
Analistas divergem sobre as ações
A XP classificou o balanço como “neutro a marginalmente positivo”, com destaque para a manutenção das projeções de produção, a disciplina de custos e a geração de caixa. O Itaú BBA também considerou os resultados alinhados às expectativas e afirmou que volumes maiores e custos melhores compensaram parcialmente os preços realizados mais baixos. O banco manteve recomendação outperform, equivalente a desempenho acima da média do mercado, e preço-alvo de R$ 94 para as ações.
O Bradesco BBI reiterou a recomendação outperform e avaliou que a recente queda dos papéis já incorporou boa parte dos riscos ligados ao minério de ferro e ao mix de produção. O Goldman Sachs manteve recomendação neutra. Para o banco, as principais dúvidas estão na capacidade de preservar volumes, qualidade do minério e competitividade de custos em 2027.

