A queda da Bolsa em outubro reduziu a maior parte dos ganhos acumulados em 2026 e devolveu à renda fixa a liderança entre os investimentos mais comuns nas carteiras brasileiras. Levantamento da Elos Ayta aponta que, até quinta-feira (29), o Ibovespa avançava 5% no ano, enquanto o Certificado de Depósito Interbancário (CDI), referência de retorno da renda fixa, acumulava alta de 11,63%.
Em outubro, o principal índice da B3 recuou 9,21%. O índice de small caps, que reúne empresas de menor valor de mercado, teve o pior resultado entre os ativos analisados: caiu 16,67% no mês e 18,02% no ano. Na direção oposta, aplicações de renda fixa e investimentos ligados ao exterior ajudaram a conter perdas nas carteiras.
Do rali à correção
O mês teve movimentos distintos antes e depois do primeiro turno. Entre a sexta-feira, 2 de outubro, e a segunda-feira seguinte, o Ibovespa subiu 7,7%, as small caps avançaram 9,2% e o dólar Ptax recuou 4,4%, para R$ 4,99. A Ptax é uma taxa de câmbio calculada pelo Banco Central.
Naquele momento, agentes do mercado avaliavam que o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegava ao segundo turno como favorito, mas que uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderia provocar uma correção mais forte do que a valorização já registrada. Da segunda-feira após o primeiro turno até 26 de outubro, primeiro pregão depois da reeleição de Lula, o Ibovespa perdeu 14,7%. As small caps caíram 20,7%, enquanto o dólar Ptax subiu 10,2%, para R$ 5,50.
O índice da Bolsa encerrou o dia 26 já 8% abaixo do nível da sexta-feira anterior ao primeiro turno. Depois disso, recuou mais 4,2%, fechando a quinta-feira (29) em 169.186 pontos. O dólar, por sua vez, devolveu parte da alta e terminou o período em R$ 5,37.
Para Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, o desempenho futuro da Bolsa depende da condução da questão fiscal. Segundo ele, se o tema for encaminhado, as ações poderão parecer baratas mais adiante. Caso os gastos continuem crescendo, a avaliação muda. “A gente provavelmente vai ver pioras adicionais e, mesmo com essa queda, a Bolsa pode estar eventualmente cara”, afirmou.
Ações e fundos imobiliários recuam
A renda variável concentrou as perdas de outubro. O índice de dividendos da B3, o IDIV, caiu 9,14% no mês e reduziu a alta acumulada em 2026 para 2,85%. Segundo Chicoli e Luise Coutinho, head de Produtos e Alocação da HCI Advisors, empresas expostas ao ciclo doméstico podem enfrentar mais pressão. Entre elas estão companhias endividadas e dependentes do consumo e do crédito, como parte do varejo e do setor de construção.
Os fundos imobiliários também terminaram o mês no vermelho. O IFIX, índice de referência do segmento, recuou 3,27% em outubro e passou a acumular queda de 3,79% no ano. Já os fundos multimercados, que podem investir em diferentes classes de ativos, tiveram perda de 1,43% em outubro, segundo o IHFA, índice da Anbima para essa categoria. O dado considera os resultados até segunda-feira (26); no ano, o índice subia 5,5%, abaixo do CDI.
O Bitcoin caiu 1,23% em reais em outubro e acumulou perda de 11,37% em 2026. Entre os ativos analisados, o petróleo teve o maior ganho mensal: Brent e WTI subiram cerca de 14% em dólares.
Renda fixa amortece as perdas
O CDI rendeu 1,02% em outubro, sem grandes oscilações, enquanto a poupança avançou 0,67% no mês e 6,86% no ano. O IMA Geral, indicador da Anbima que acompanha uma carteira de títulos públicos, subiu 0,14% em outubro e acumulou valorização de 10,27% em 2026.
Para quem tem recursos novos, Bruno Corano, economista e CEO do Corano Capital, considera o Tesouro Selic uma opção adequada em um ambiente volátil. Ele avalia que títulos sujeitos à marcação a mercado — atualização diária do preço de um investimento conforme as condições do mercado — envolvem mais risco nesse cenário.
Glauber Sá, fundador da Akros Consultoria, vê oportunidade em títulos atrelados à inflação para investidores com horizonte longo e disposição para tolerar oscilações. Ele recomenda dividir as compras em vários aportes. “O erro mais caro não é comprar no dia errado, é abandonar a estratégia no meio do caminho”, disse.
Investimentos no exterior ajudam a proteger
A alta do dólar contribuiu para amortecer perdas de quem tinha ativos no exterior. O euro Ptax subiu 2,08% em outubro, e o índice de BDRs avançou 1,48%. BDRs são recibos negociados na B3 que representam ações de empresas estrangeiras. No mesmo mês, o S&P 500 subiu 0,90% em dólares, enquanto o Nasdaq caiu 2,52%. No ano, os BDRs acumulavam alta de 11,18%, pouco abaixo do CDI.
Apesar da alta mensal, o dólar ainda caía 2,33% em 2026. Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, afirma que a cotação não deve afastar investidores com horizonte de dez, 15 ou 20 anos. Para um perfil moderado, ele trabalha com uma parcela de 20% a 40% da carteira no exterior. Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG Bank, cita uma faixa de 25% a 50% do patrimônio financeiro investível para determinadas famílias, sem tratar o intervalo como regra geral.
Ferreira também alerta para o risco de vender ações brasileiras após a queda apenas para comprar ativos em dólar. Para ele, a decisão deve considerar a carteira que o investidor pretende construir, e não apenas a reação à oscilação do mercado.

