Após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro tenta manter a família em evidência na direita e reorganizar a oposição ao governo. Nesta semana, o senador está nos Estados Unidos com o irmão, Eduardo Bolsonaro, para participar da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), na Flórida, e ampliar contatos com lideranças internacionais.
A estratégia também busca dar visibilidade, fora do Brasil, às críticas dos bolsonaristas ao governo e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Integrantes da oposição veem a saída de Flávio do país como uma nova etapa da reorganização política da família. O senador afirmou ter sido alvo de perseguição política.
Analistas avaliam que a atuação no exterior pode apresentar Flávio a uma audiência internacional como um dissidente que não conseguiria fazer oposição plenamente dentro do Brasil. Essa imagem o aproximaria da figura de um opositor a um regime com características autoritárias, em vez da de um líder político atuando em uma democracia plena.
CPAC amplia contatos com conservadores
A CPAC reúne parlamentares, integrantes de governos, ativistas e representantes de movimentos conservadores, muitos ligados ao Partido Republicano dos Estados Unidos. A participação dos irmãos Bolsonaro é uma oportunidade para buscar alianças com políticos estrangeiros e levar a outros países suas críticas ao governo brasileiro e ao Judiciário.
O presidente americano, Donald Trump, comentou a situação de Flávio depois da chegada do senador aos Estados Unidos. No sábado (31), Trump disse que não planejava encontrá-lo, mas afirmou que ele havia sido tratado “muito injustamente” e que poderia permanecer no país pelo tempo que quisesse.
Trump também voltou a criticar o processo eleitoral brasileiro. Dias antes, porém, havia afirmado que não pretendia interferir na eleição do Brasil. Para Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia, a ida de Flávio aos Estados Unidos é uma escolha estratégica, e não apenas circunstancial.
“Ao publicar sua carta como líder no exílio, Flávio quer consolidar-se como o representante político da direita, mantendo a militância mobilizada”, afirmou Coimbra. Segundo ele, a atuação fora do país pode ajudar o senador a manter a comunicação com a base bolsonarista e uma agenda de oposição ao governo.
Eduardo articula presença da família no exterior
A aproximação dos Bolsonaro com a direita americana passa, em grande medida, por Eduardo. Desde que deixou o Brasil, em 2025, o ex-deputado intensificou contatos com políticos republicanos, representantes de movimentos conservadores e integrantes do governo dos Estados Unidos. Ele também é um dos principais interlocutores brasileiros na CPAC.
Em março deste ano, Flávio discursou na edição do evento realizada no Texas, após ter sua participação articulada pelo irmão. Na ocasião, o então pré-candidato disse que não desejava uma “interferência” estrangeira na eleição brasileira, mas defendeu que atores internacionais acompanhassem de perto o processo. Também afirmou que uma vitória nas urnas representaria, em suas palavras, o nascimento da “mais forte aliança conservadora da história do Hemisfério Ocidental”.
A edição desta semana ocorre em Palm Beach, na Flórida. Eduardo está confirmado como palestrante na quinta-feira (5), enquanto Flávio é esperado, embora seu nome ainda não apareça na programação oficial. Entre os participantes anunciados estão os senadores republicanos Rick Scott e Mike Lee, a deputada americana Kat Cammack e a ex-primeira-ministra britânica Liz Truss.
Criada nos Estados Unidos, a CPAC tornou-se um dos principais encontros do movimento conservador internacional. O evento reúne autoridades, parlamentares, ativistas e organizações políticas para discutir temas como soberania nacional, liberdade, tradição e combate ao comunismo.
Eduardo classificou a saída do irmão do Brasil como um “ato de patriotismo” e associou a decisão à resistência ao que chamou de avanço do “nazifascismo” no país. “Mais um filho que se afasta por um momento de patriotismo, se afasta para combater algo parecido com o nazifascismo que cada vez mais avança em nosso país. A liberdade não tem preço. Ouso dizer que a liberdade é mais importante que a própria vida”, escreveu o ex-deputado nas redes sociais.
Oposição também discute atuação no Brasil
Aliados de Flávio ouvidos pela reportagem dizem que ampliar a atuação nos Estados Unidos não significa necessariamente abandonar a disputa política no Brasil. Para integrantes do PL, a interlocução com conservadores estrangeiros pode aumentar o peso da oposição diante do governo Lula e do STF.
O jurista Ives Gandra da Silva Martins defende que Flávio e parlamentares conservadores formem um grupo para acompanhar a atuação dos ministros do governo, fiscalizar políticas públicas e apontar problemas na administração federal. Uma das propostas é criar um Gabinete Sombra, modelo inspirado no sistema britânico em que a oposição acompanha e apresenta alternativas às ações do governo.
“Estou convencido de que devemos adotar imediatamente o modelo britânico do Gabinete Sombra. Considero fundamental que o senador Flávio Bolsonaro e os conservadores adotem esse modelo para fiscalizar o futuro governo”, afirmou Gandra. O jurista citou como precedente o Governo Paralelo organizado pelo PT depois da derrota de Lula para Fernando Collor, em 1989.
Gandra defende que a oposição concentre esforços na disputa política e na fiscalização do Executivo, em vez de priorizar questionamentos judiciais. “Considerando que as sucessivas decisões da Suprema Corte têm sido favoráveis ao presidente Lula, fica claro que a controvérsia não deve ser travada na arena jurídica, mas no campo político”, disse.

