Guerra e El Niño devem elevar preços de commodities em 23% no ano, diz Banco Mundial


Os preços das commodities devem subir, em média, 23% em 2026, segundo projeção do Banco Mundial divulgada nesta quarta-feira (28). A alta é atribuída à combinação de choques globais, com o conflito no Oriente Médio reduzindo estoques de petróleo e interrompendo embarques de grãos, enquanto o fenômeno climático El Niño ameaça as safras.

Commodities são matérias-primas negociadas em mercados globais, como petróleo, alimentos e metais. O relatório prevê aumento de 32% nos preços da energia neste ano, revertendo três anos de queda. A estimativa para o barril de petróleo Brent é de média de US$ 91 em 2026, ante US$ 69 em 2025. Em 2027, o preço deve recuar para US$ 79, enquanto os preços gerais das commodities devem cair 7%.

Energia e alimentos sob pressão

O Banco Mundial afirma que a projeção considera que não haverá uma intensificação significativa dos conflitos que afetam o abastecimento global. Ainda assim, os preços da energia podem superar as estimativas se a guerra no Oriente Médio se agravar e os danos à infraestrutura petrolífera da Rússia persistirem.

A oferta mundial de petróleo deve cair 5,2% em 2026, a maior redução em mais de quatro décadas, excluída a queda associada à recessão global de 2020, durante a pandemia de Covid-19. O consumo também deve diminuir, 2,5%, na terceira maior contração anual registrada, atrás apenas de 2020 e 1980.

Segundo o Banco Mundial, os preços elevados e a escassez de oferta reduzem a demanda. A eletrificação também diminui o uso de petróleo, especialmente na China. Mesmo com a queda do consumo, a produção deve ficar abaixo da demanda, levando a novas retiradas dos estoques e deixando o mercado mais vulnerável a interrupções no fornecimento.

Nos alimentos, a previsão é de alta de cerca de 10% em 2026 e mais 7% em 2027, o que representa um avanço acumulado de 18% no período. Além dos embarques de grãos afetados pelo conflito, o El Niño pode prejudicar as colheitas. Combustíveis e fertilizantes mais caros também elevam os custos da produção agrícola.

Risco de crise alimentar

O Banco Mundial alerta que a combinação de energia mais cara, ataques a embarques de grãos no Mar Negro e um El Niño muito forte poderia agravar a insegurança alimentar e empurrar mais pessoas para a pobreza extrema. O cenário lembraria a situação do início dos anos 2010.

Em uma hipótese adversa, na qual esses riscos ocorram ao mesmo tempo, o Brent poderia alcançar média de US$ 105 por barril em 2027. Os preços das commodities alimentícias ficariam 12% acima do previsto no cenário-base e superariam o nível de 2022, segundo a instituição.

Ayhan Kose, economista-chefe adjunto do Banco Mundial e diretor do Grupo de Perspectivas, afirmou que os mercados enfrentam vários choques simultâneos. “Custos de energia mais altos e interrupções no comércio estão elevando os preços de uma ampla gama de commodities, ameaçando piorar a inflação, a insegurança alimentar e o crescimento econômico”, disse. Ele defendeu a proteção das pessoas mais pobres e o apoio a países de baixa renda que enfrentam pesadas dívidas.

Para ajudar os países a lidar com os efeitos dos preços mais altos, o Banco Mundial disponibilizou entre US$ 50 bilhões e US$ 60 bilhões por meio de instrumentos existentes. Desse total, US$ 25 bilhões correspondem a financiamentos já preparados. Os recursos podem apoiar redes de proteção social, ampliar a capacidade fiscal dos governos e oferecer capital de giro e liquidez a empresas e propriedades rurais.

Metais também devem encarecer

O relatório projeta alta de 14% nos fertilizantes em 2026, após um salto nos preços da ureia no início do ano, que perdeu força posteriormente. Em 2027, os preços devem voltar aos níveis de 2025.

Os metais devem subir 25% neste ano e atingir um novo recorde, com alumínio, cobre e estanho em máximas históricas. O Banco Mundial relaciona a valorização à demanda por investimentos em energia renovável, veículos elétricos e centros de processamento de dados, além de interrupções na oferta. Para 2027, a previsão é de queda de 3%.

Já os metais preciosos devem avançar 40% em 2026, com a procura por ativos considerados seguros elevada pela incerteza geopolítica e política. Mesmo com uma moderação prevista para 2027, os preços permaneceriam mais de três vezes acima da média de 2015 a 2019.

O estudo também analisa como os preços de diferentes commodities se influenciam. As conexões entre a volatilidade dos mercados ficam mais fortes em períodos de estresse econômico ou financeiro, segundo o Banco Mundial. Os metais industriais costumam transmitir mais oscilações a outros grupos, mas a influência do petróleo aumentou acentuadamente desde o início do conflito no Oriente Médio.

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