Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) vão disputar, em campanhas paralelas, votos para tentar derrotar Davi Alcolumbre (União-AP) na eleição para a presidência do Senado, marcada para fevereiro de 2027. A estratégia prevê que os dois aliados busquem grupos distintos de parlamentares e decidam mais adiante quem ficará com a candidatura única da oposição.
O plano, descrito como uma “pinça eleitoral”, busca reunir apoios que talvez não migrassem de imediato de um candidato para o outro. Nas próximas semanas, Marinho e Tereza pretendem avaliar a receptividade de suas articulações nas bancadas, especialmente entre senadoras e partidos de centro. A candidatura de Marinho pelo PL foi oficializada na quarta-feira (4); Tereza também confirmou que concorrerá ao comando da Casa.
“A senadora Tereza é nossa parceira, está do mesmo lado, comungamos das mesmas bandeiras, dos mesmos propósitos e juntos faremos o possível para derrotarmos o atual presidente, o senador Davi Alcolumbre”, afirmou Marinho ao anunciar sua candidatura.
Campanhas voltadas a grupos diferentes
Marinho concentra sua atuação na oposição conservadora, no PL e em setores independentes. Entre as bandeiras de sua plataforma estão a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, limites às decisões monocráticas — tomadas por um único ministro — e mudanças nas competências do Supremo Tribunal Federal (STF).
O senador também defende o impeachment de ministros da Corte em caso de crime de responsabilidade. Ao lançar a candidatura, disse que a campanha não terá como tema o afastamento de integrantes do STF, mas a defesa da Constituição. “Se algum ministro do STF cometer crime de responsabilidade, não seremos omissos, mas não vamos antecipar ou fazer juízo de valor”, declarou.
Marinho quer que a presidência do Senado atue como poder moderador e dê andamento a propostas de interesse da oposição que, segundo ele, ficaram paradas. Sua postura inclui oposição à agenda econômica e política do governo federal.
Tereza Cristina aposta em outro perfil. Líder da bancada do agronegócio, ela busca apoio de partidos do Centrão, entre eles alas do Republicanos, do PSD e do MDB. A senadora também tenta atrair a Bancada Feminina com a possibilidade de se tornar a primeira mulher a presidir o Senado em mais de 200 anos de história do Parlamento.
Na relação com o Executivo e o Judiciário, Tereza adota uma abordagem mais cautelosa e não coloca o impeachment de ministros do STF como prioridade. Ela defende reformas no processo legal e a recuperação da harmonia entre os Poderes. Embora faça oposição ao governo Lula em temas fiscais e regulatórios, mantém espaço para negociação institucional.
A senadora enfrenta ainda uma particularidade partidária: o PP integra a federação União Progressista, formada também pelo União Brasil, cuja direção declarou apoio à reeleição de Alcolumbre. Tereza, porém, defende que os 81 senadores tenham “voto livre, soberano e secreto”.
Disputa exige ao menos 41 votos
A eleição da Mesa Diretora ocorre em votação secreta. Como o Senado tem 81 integrantes, são necessários 41 votos para vencer. Estimativas preliminares citadas na disputa atribuem a Marinho 32 apoios: 29 senadores do PL e três do Novo previstos para 2027. Para chegar ao mínimo, ele precisaria conquistar mais nove votos, com possíveis dissidências em partidos como Republicanos, PP, MDB, Podemos e PSD.
Tereza começa com uma estimativa menor, de 12 a 15 votos entre integrantes do PP e das bancadas do agronegócio e feminina. Analistas apontam, contudo, que ela pode ampliar o apoio por ter baixa rejeição entre parlamentares do Centrão. Somadas, as projeções dos dois candidatos ultrapassam os 41 votos, mas isso não garante a transferência de apoios caso um deles desista.
O especialista em Teoria Geral do Estado e professor da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Beçak avalia que as duas candidaturas têm representatividade. Para ele, Marinho reúne força por liderar o PL, que deve ser a maior bancada em 2027, enquanto Tereza pode se apoiar tanto em maiorias políticas quanto na possibilidade de ser a primeira mulher no cargo.
A força de Alcolumbre também pesa na disputa. O atual presidente do Senado tem influência sobre a estrutura administrativa da Casa e sobre a distribuição de relatorias e comissões, além de transitar entre partidos governistas, como PT e PSB, e siglas de centro, como MDB e PSD. O presidente Lula é apontado como aliado de Alcolumbre.
Aliança depende de coordenação
Uma eventual desistência exigirá um acordo sobre a divisão de espaços. Entre as possibilidades mencionadas estão a 1ª Vice-Presidência do Senado ou o comando da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para o candidato que abrir mão da disputa. A composição sinalizaria que os grupos pretendem compartilhar influência na Casa.
Beçak pondera que os votos não se transferem automaticamente, porque a escolha é secreta e não depende apenas de decisões partidárias. “Pode ser que isso acabe, em última análise, beneficiando o senador Davi Alcolumbre”, afirmou. A avaliação das alianças e o momento de anunciar uma chapa única serão, portanto, parte central da estratégia.
O especialista em política Elias Tavares avalia que Tereza pode atrair parlamentares de centro e centro-direita que resistam tanto à reeleição de Alcolumbre quanto ao perfil mais combativo de Marinho. Para ele, o resultado dependerá da coordenação entre os aliados e da capacidade de transformar apoios potenciais em maioria. “A candidatura mais competitiva será aquela que conseguir transformar a força do próprio campo em uma maioria dentro da Casa”, disse.

