S&P 500 pode cair 9% com eleições nos EUA, mas Morgan Stanley vê potencial de compra


Mike Wilson, estrategista-chefe de ações dos Estados Unidos no Morgan Stanley, prevê que o S&P 500 possa cair cerca de 9% em relação ao último recorde, até 7.100 pontos, antes de retomar a alta. Em entrevista à Bloomberg, ele apontou as eleições de meio de mandato, dúvidas sobre os gastos com inteligência artificial (IA) e restrições de liquidez como fatores que podem provocar uma correção temporária. Depois desse ajuste, Wilson acredita que o índice pode chegar a 8.000 pontos.

A projeção otimista considera que uma correção já vem ocorrendo há meses em partes do mercado, mesmo que não tenha se refletido de forma ampla nos principais índices. Wilson também reconheceu que a guerra em curso no Irã tem pressionado as ações americanas de forma intermitente ao longo do ano. Ainda assim, disse esperar uma recuperação após as eleições legislativas de meio de mandato.

Eleições podem aumentar a incerteza

Para Wilson, as eleições de meio de mandato costumam pesar sobre as ações antes da votação, mas o histórico do mercado é favorável nos seis a 12 meses seguintes. Ele ressalvou que os ganhos não são constantes no período entre novembro e o fim de dezembro, citando 2018 como exemplo de um ano em que o desempenho foi diferente.

O estrategista avalia que a disputa deste ano tem um componente adicional de incerteza porque o presidente Donald Trump tem sinalizado que pretende anunciar uma medida de grande porte depois da eleição, sem revelar qual será. Segundo Wilson, essa indefinição tem deixado investidores apreensivos.

Na avaliação dele, o mercado já considera provável que os democratas conquistem a Câmara dos Representantes e possivelmente o Senado, embora por uma margem pequena. Wilson afirmou que um resultado de 52 a 48 estaria precificado, mas uma vantagem de 55 a 45 poderia causar mais perturbação. Um Congresso controlado pelos democratas poderia dificultar a construção de centros de dados e ampliar a regulamentação, criando obstáculos à expansão de empresas e setores ligados à IA.

Wilson também apontou que parte da resistência à construção de centros de dados tem motivação política. Ele citou o argumento de candidatos contrários a projetos em suas comunidades, por receio de que elevem a inflação local. Apesar dos riscos, o estrategista disse estar convencido de que haverá uma recuperação depois das eleições, embora o mercado possa cair antes. Ele descreveu como positivo o histórico de alta nos seis a 12 meses seguintes à votação, sem afirmar que o resultado futuro é garantido.

Emissões de ações e custo de capital

Questionado sobre a oferta de ações de empresas como Meta, SpaceX e Anthropic, Wilson disse que, por enquanto, não vê o volume de emissões superando a demanda. Segundo ele, além das empresas de tecnologia de grande porte, há emissões ligadas a fusões e aquisições. O crescimento da economia também estaria absorvendo capital: Wilson estimou que o Produto Interno Bruto (PIB) nominal — que mede a produção sem descontar a inflação — avança a um ritmo de 7,5%.

O estrategista disse, porém, que a captação de recursos avançou bastante neste ano e que o ciclo pode estar mais adiantado. Por isso, afirmou que uma pausa nas operações poderia ocorrer nos 30 dias seguintes à entrevista. Ele também observou que algumas empresas continuam recomprando ações, mas passaram a ser consumidoras líquidas de capital. Na avaliação dele, essas companhias emitem ações para financiar despesas e crescimento, e não apenas para operações financeiras.

Wilson relacionou a alta dos juros neste ano, em grande parte, ao crescimento acelerado da economia. O endividamento do governo também contribui, mas, segundo ele, parte dos recursos captados retorna à economia real. Com crescimento mais forte, investidores podem aceitar juros maiores. O ambiente, contudo, favorece empresas de qualidade e dificulta a vida de companhias menores ou mais frágeis, que enfrentam custos de empréstimo de 8%, 9% ou 10%.

Mercado impõe limites às captações

Ao comparar o cenário atual com a bolha das empresas de internet, Wilson disse que o mercado continua financiando operações e que algumas emissões de dívida têm recebido forte demanda. Ele citou operações de US$ 40 bilhões fechadas rapidamente, mas ponderou que essa disposição pode mudar.

Um freio, segundo o estrategista, é o custo de financiamento. Quando os investidores exigem juros maiores, empresas mais frágeis podem desistir de captar recursos. Wilson também ressaltou que o governo americano tinha superávit no fim dos anos 1990, ao contrário do cenário atual, e que a dívida pública disputa capital com as empresas.

Ao mesmo tempo, os juros reais — descontada a inflação — estão em níveis que Wilson considera atraentes em comparação com os últimos 20 anos. Isso leva investidores a alternar entre crédito e ações. Se o mercado acionário perder força, empresas podem recorrer mais à dívida, que, segundo ele, conta com demanda para um custo total de capital de 7% a 8%. Para Wilson, a possibilidade de alternar entre emissões de ações e de dívida mostra que as companhias estão reagindo às condições de financiamento.

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