Susana Salvador, pecuarista à frente de um legado de 120 anos


Aos 63 anos, a médica-veterinária Susana Macedo Salvador administra a Cia. Azul Agropecuária, em Uruguaiana (RS), com cerca de 6 mil bovinos em uma área de aproximadamente 8 mil hectares. A propriedade vende cerca de 320 touros por ano e combina seleção genética de bovinos com produção de arroz. O trabalho dá continuidade a uma tradição familiar de quatro gerações e busca elevar a produtividade e a eficiência dos rebanhos.

Da tradição familiar à seleção genética

A atividade rural da família começou com o bisavô de Susana, João Vieira de Macedo, entre Quaraí e Uruguaiana, no oeste gaúcho. Ela seguiu os passos do pai, João Vieira de Macedo Neto, e agora prepara a transição para a quinta geração. Formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), começou a trabalhar com ele após concluir a graduação.

Na então Cabanha Azul, Susana assumiu os plantéis e passou a trabalhar com técnicos e pesquisadores estrangeiros. Ela conta que o pai lhe deu autonomia para conduzir o rebanho. Em 1999, ele doou metade do patrimônio aos filhos. Susana e o marido, o engenheiro-agrônomo Reynaldo Titoff Salvador, mantiveram o foco na genética bovina e passaram a operar com o nome Cia. Azul. Os irmãos seguiram outros caminhos, com maior dedicação à produção de arroz.

A empresa trabalha com angus, hereford, devon, brangus e braford, além de ovinos da raça merino australiano, voltados à produção de lã fina. Também cria ultrablack, bovino composto por cerca de 80% de sangue angus e 20% de sangue zebuíno. A seleção utiliza dados e tecnologias para identificar características que possam melhorar o desempenho dos animais.

“Algo bem importante no nosso perfil é que somos pioneiros em todos os programas de melhoramento genético dos quais participamos”, diz Susana. O setor movimentou R$ 6,13 bilhões em 2025, segundo o Beef Report 2026, da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). A Cia. Azul vende aproximadamente 320 touros por ano, somadas as raças, e, de acordo com Susana, aparece com frequência entre os cinco maiores vendedores de genética taurina em levantamentos do setor.

Dados e produtividade no rebanho

A família participa da história do melhoramento bovino no país desde a década de 1970. Dados do rebanho foram usados pelo geneticista Luiz Alberto Fries em seu trabalho acadêmico, ligado à origem do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo), em 1974. Desde então, a coleta de informações e a avaliação dos animais passaram a fazer parte da rotina da propriedade.

O melhoramento genético consiste em selecionar animais com características que possam ser transmitidas às gerações seguintes. Para Susana, porém, a genética precisa ser acompanhada por manejo adequado. Ela resume a atividade em três pilares: sanidade, genética e nutrição.

Os indicadores do setor mostram a mudança na produtividade da pecuária de corte. Segundo referências da Scot Consultoria, a produção passou de cerca de 12 quilos de carcaça por hectare de pastagem, em 1970, para 73,2 quilos em 2025. O peso médio das carcaças também subiu: de 199 quilos em 1977 para 257,5 quilos em 2025, conforme dados da Embrapa. Em concursos de carcaça, animais angus podem superar 350 quilos.

Susana também atuou em entidades ligadas à genética bovina. No início dos anos 2000, foi diretora técnica da Associação Brasileira de Angus. Na década seguinte, integrou o Conselho de Representantes da Associação Nacional de Criadores Herd-Book Collares, responsável pelo Promebo, e o Conselho Deliberativo Técnico da Associação Nacional de Criadores. Desde 2024, é suplente no Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Hereford e Braford, com mandato até 2027.

Arroz e integração com a pecuária

A Cia. Azul produz arroz e sementes em cerca de 350 hectares por ano. A produtividade fica em torno de 11,5 toneladas por hectare, o que resulta em uma safra aproximada de 4 mil toneladas. A lavoura funciona em conjunto com a criação por meio da Integração Lavoura-Pecuária (ILP): após a colheita, as áreas entram em rotação com pastagens usadas na alimentação dos bovinos.

Susana compara a seleção de animais à escolha de sementes para a lavoura: “Um touro melhorador não deixa de ser uma semente qualificada para o rebanho”. Segundo a produtora, a integração organiza o uso da terra. A prática também pode reduzir a pressão sobre a vegetação nativa, melhorar a saúde e a fertilidade do solo e contribuir para incorporar carbono por meio das raízes e dos resíduos vegetais.

“Estamos aqui há 120 anos e quero que os meus netos sigam produzindo e cuidando destas terras. É fundamental devolver à terra o que ela nos oferece”, afirma. Susana tem três filhos e sete netos, e diz que a continuidade da operação depende tanto da sucessão quanto do cuidado com os recursos naturais.

Governança para a próxima geração

A preparação dos sucessores começou antes da transferência formal de responsabilidades. Os filhos cresceram na estância, acompanhando o trabalho, e participam da empresa como acionistas. Desde 2010, a família organiza a estrutura patrimonial e de gestão. Hoje, o patrimônio está concentrado em uma pessoa jurídica, com conselho de família e conselho de administração.

Susana diz que a sucessão exige que os jovens entendam a rentabilidade da atividade e participem das decisões, mesmo quando têm autonomia. “Todo jovem precisa do seu pequeno reinado: um lugar onde ele possa ter certa autonomia para realmente se comprometer com aquele trabalho”, afirma.

Para lidar com divergências, a família procura basear as decisões em dados e, quando necessário, recorre a consultores externos. “Para ter sucesso no agro é preciso paixão e comprometimento, mas as decisões precisam ser tomadas estritamente com base em números e dados”, diz Susana.

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