A XP passou a prever que a taxa básica de juros, a Selic, ficará em 13,75% até o fim de 2027, sem novos cortes no cenário-base. A projeção foi divulgada antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para terça-feira (3) e quarta-feira (4). A revisão reflete a piora nas expectativas de inflação e em fatores que podem pressionar os preços.
“Acreditamos que o Copom manterá a taxa Selic em 13,75% nesta semana”, afirma o relatório “Esquenta do Copom”, assinado pelo economista-chefe da XP, Caio Megale. A casa também avalia que, por ora, os juros devem permanecer nesse nível até o fim de 2027.
A previsão não exclui mudanças na trajetória da política monetária. Segundo o relatório, o Copom poderá retomar os cortes se os ativos financeiros se estabilizarem e o cenário de inflação melhorar. Se as condições exigirem, porém, o Banco Central também poderá elevar a taxa básica.
Expectativas mudaram desde setembro
A revisão da XP considera dados e notícias divulgados desde a reunião anterior do Copom, em setembro. Na ocasião, o comitê reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75%. Naquele momento, havia divergência entre analistas: alguns já esperavam uma pausa nos cortes, enquanto outros, incluindo a própria XP, apostavam em novos alívios. A projeção da casa era de juros a 13,25% no fim de 2026.
O cenário após as eleições alterou essa avaliação. Entre os fatores que contribuíram para a deterioração das perspectivas, a XP aponta a desvalorização do real, a alta dos preços do petróleo e o aumento das expectativas de inflação para prazos mais longos.
O relatório também menciona riscos climáticos associados ao El Niño, que podem afetar os preços, e mudanças em políticas e na composição de índices. A XP cita a aprovação do fim da jornada de trabalho 6×1 e o aumento da alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) acima do previsto anteriormente. A casa também considera que o rebalanceamento dos grupos do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve elevar os preços dos serviços.
Projeções de inflação se afastam da meta
De acordo com a XP, as projeções do mercado para a inflação de 2027 subiram 0,40 ponto percentual nos últimos dias. As estimativas já estavam acima da meta, e a alta amplia a distância em relação ao objetivo perseguido pelo Banco Central.
A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso corresponde a um limite superior de 4,5% e a um inferior de 1,5%. A XP avalia que as projeções usadas nos modelos do Copom devem indicar uma inflação ainda mais distante do centro da meta.
Para 2026, a estimativa da XP é que a projeção do Copom permaneça em 5,2%. Para 2027, a casa prevê uma elevação de 3,9% para 4,4%. Já no segundo trimestre de 2028, período que corresponde ao horizonte relevante da política monetária, a projeção deve passar de 3,1% para 3,5%.
O relatório também chama atenção para o boletim Focus mais recente, que aponta inflação mais alta em 2029, além do período em que os efeitos de choques de curto prazo seriam esperados. “As projeções subiram mais do que a inércia inflacionária de 2028 sugeriria. Trata-se, portanto, de uma potencial deterioração na credibilidade da política econômica. Com isso, uma reação firme de política monetária contribuiria para amenizar essa dinâmica”, afirma Megale.
Atividade mais fraca não basta para conter expectativas
A desaceleração da economia tende a reduzir as pressões sobre os preços, mas, na avaliação da XP, não tem sido suficiente para conter as expectativas de inflação. A casa estima que o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre passe de uma variação de 0% para uma retração de 0,2%.
Entre os sinais de enfraquecimento da atividade, o relatório cita um mercado de crédito mais frio e taxas de inadimplência mais elevadas. Ainda assim, a deterioração das projeções de inflação pesa na avaliação da política monetária e sustenta a expectativa de manutenção dos juros.
A XP espera que o comunicado do Copom adote um tom mais duro, descrito no mercado como hawkish, mas sem indicar os próximos passos. Essa ausência de orientação futura, chamada de forward guidance, significa que o comitê não deverá antecipar no texto qual será a trajetória da Selic após a decisão desta semana.