Swaps de moedas crescem em meio a crises, mas podem gerar dependência


Choques econômicos e geopolíticos ampliaram o uso de acordos de swap entre bancos centrais, que trocam moedas para garantir acesso a recursos em momentos de escassez. Enquanto o Federal Reserve (Fed), dos Estados Unidos, e o Banco Central Europeu (BCE) usaram essas linhas para conter pressões durante crises, a China expandiu sua rede para países em desenvolvimento, em alguns casos criando dependência de financiamentos renováveis.

Um levantamento do Council on Foreign Relations (CFR), por meio de um rastreador de acordos entre bancos centrais, mostra que a rede global de segurança financeira mudou desde a crise de 2007 e 2008. Desde 2009, o Banco Popular da China (PBoC, na sigla em inglês) assinou acordos bilaterais com mais de 40 contrapartes.

Como funcionam os acordos

Um swap permite que um banco central troque sua moeda por uma quantia determinada de moeda estrangeira. A instituição que recebe os recursos pode emprestá-los a bancos ou empresas de seu país, conforme suas próprias condições e assumindo os riscos dessas operações.

Em geral, a troca é desfeita em uma data previamente estabelecida. O banco central que recebeu a moeda estrangeira recompra a própria moeda pela taxa de câmbio original e paga juros definidos no contrato. As linhas podem ser unidirecionais, quando apenas uma parte fornece recursos, ou recíprocas, quando os dois bancos centrais podem conceder liquidez um ao outro. Também há acordos que envolvem uma terceira moeda.

Embora a estrutura dos swaps busque proteger as partes de oscilações cambiais, ainda existe o risco de uma instituição não cumprir o acordo. Por isso, as linhas também representam um gesto de confiança política entre os países envolvidos. O Tesouro dos Estados Unidos, por exemplo, estendeu uma linha de US$ 20 bilhões ao banco central da Argentina. O Japão mantém acordos com países como Indonésia, Filipinas, Tailândia, Malásia, Singapura, Índia e Coreia do Sul.

Fed e BCE atuaram em crises

O Fed começou a ampliar suas linhas durante a crise financeira global. Em 12 de dezembro de 2007, ofereceu swaps ao BCE e ao Banco Nacional Suíço para aliviar a crescente demanda por dólares entre bancos europeus. Em setembro de 2008, após o colapso do Lehman Brothers, aumentou os valores disponíveis e firmou acordos com Canadá, Reino Unido e Japão. Depois, incluiu Austrália, Dinamarca, Noruega, Suécia e Nova Zelândia. Em outubro daquele ano, também abriu linhas para Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura.

Os empréstimos feitos por meio das linhas do Fed chegaram ao pico de US$ 586 bilhões em dezembro de 2008. Na pandemia de Covid-19, a procura por dólares voltou a pressionar os mercados. Em 15 de março de 2020, o Fed reduziu para pouco acima de zero a taxa de juros de suas linhas com bancos centrais de economias desenvolvidas. No mesmo ano, aprovou acordos emergenciais para outros países, incluindo Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura. Essas quatro linhas expiraram em 2021.

O Japão foi o maior usuário das linhas em dólar do Fed durante 2020, com saques pendentes que atingiram cerca de US$ 225 bilhões. O BCE, por sua vez, reativou uma linha com a Dinamarca e criou acordos temporários com Croácia e Bulgária durante a pandemia. Segundo o CFR, essas três linhas não chegaram a ser utilizadas, pois os mercados globais de euros permaneceram relativamente calmos, apesar da pressão no financiamento em dólares.

China amplia presença entre países endividados

O PBoC tem usado seus swaps para apoiar o comércio e incentivar o uso internacional do renminbi (RMB), também chamado de yuan. Segundo o CFR, a China limita a quantidade de RMB disponível para liquidação comercial, e alguns países recorreram às linhas de swap para obter a moeda depois de atingir esses limites.

Treze dos 17 países que utilizaram linhas chinesas recorreram a elas para fortalecer suas reservas cambiais. O valor total em aberto atingiu o pico em 2023. O rastreador do CFR registra mais de US$ 24 bilhões em linhas chinesas pendentes em países como Malásia, Turquia, Paquistão, Egito, Mongólia, Sri Lanka, Nigéria e Laos.

O uso argentino ilustra a função dessas linhas em momentos de dificuldade financeira. Após enfrentar restrições para tomar dólares emprestados nos mercados internacionais, a Argentina utilizou o swap em RMB como alternativa para obter recursos. Em 2023, usou a linha para pagar diretamente em renminbi uma obrigação com o Fundo Monetário Internacional (FMI), evitando um calote, segundo o texto de origem.

O CFR afirma que os swaps chineses têm servido, em parte, como alternativa a empréstimos com garantia para países muito endividados. Em geral, seriam mais caros que os do Fed e, com renovações frequentes, podem se estender por períodos maiores. A China também firmou acordos com a Arábia Saudita e as Ilhas Maurício em 2024. Outros países ampliaram o uso da ferramenta: os Emirados Árabes Unidos estabeleceram linhas em moeda local com Turquia, Egito e Etiópia entre 2022 e 2024.

Dependência e riscos para o sistema

As linhas de swap ajudaram a evitar vendas forçadas de ativos e outras medidas que poderiam agravar crises. Mas o CFR alerta que a permanência desses acordos pode incentivar o crescimento de descasamentos entre receitas e dívidas em moedas diferentes. Se bancos e empresas esperarem que seus bancos centrais garantam moeda estrangeira em períodos de tensão, podem assumir riscos maiores.

Na avaliação do conselho, essa expectativa também pode influenciar os credores: instituições que emprestam a bancos estrangeiros podem continuar concedendo recursos esperando que, em uma crise, o pagamento seja feito com dinheiro obtido pelo banco central. Assim, uma ferramenta criada para aliviar a falta de liquidez pode ampliar a dependência de apoio oficial quando as condições de mercado pioram.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Recentes

São Tomé e Príncipe lança Resilands para reforçar resiliência climática e proteção

São Tomé e Príncipe avançou, em outubro, na preparação de medidas para proteger comunidades e obras públicas diante dos...

Quem leu, também se interessou