Democratas não devem desperdiçar chance de revolucionar a política externa


A nova maioria democrata no Congresso dos Estados Unidos, que assumirá o controle em janeiro, deveria combinar o fim da guerra contra o Irã com medidas contra a corrupção política e o custo de vida. A proposta parte da avaliação de que esses problemas estão ligados e de que ameaças internas, como a polarização e a concentração de poder econômico, representam riscos imediatos à segurança e à prosperidade americanas.

A agenda defendida inclui investigar a administração de Donald Trump e também rever decisões de governos anteriores dos dois partidos. A avaliação é que as ações militares de Trump, embora descritas como particularmente agressivas, fazem parte de uma tradição mais ampla de uso da força por Washington. Para construir uma alternativa de política externa, os democratas deveriam reconhecer essa continuidade, em vez de limitar a investigação aos atos do atual presidente.

Pressão para encerrar a guerra

A prioridade indicada é interromper a guerra contra o Irã, descrita como imprudente e impopular. O texto sustenta que a oposição ao conflito cresceu à medida que seus efeitos chegaram ao bolso dos americanos. Para barrar as hostilidades, o Congresso poderia usar seu poder de controlar os gastos e rejeitar novos recursos solicitados pelo governo.

A recomendação vai além de negar um orçamento suplementar para a guerra. Os democratas deveriam, segundo a proposta, considerar bloquear o financiamento das Forças Armadas e a votação da Lei de Autorização de Defesa Nacional, que define o escopo e o orçamento geral do Departamento de Defesa. O texto também sugere condicionar o financiamento de todo o governo à proibição de novos recursos para o conflito.

O prazo mencionado para aprovar uma resolução provisória que mantenha o governo em funcionamento é 11 de dezembro. A possibilidade de uma paralisação do governo seria, nessa estratégia, uma forma de pressionar pelo fim da guerra. O argumento retoma o receio que, no passado, levou democratas a evitar cortes de verbas militares para não serem acusados de deixar de apoiar as tropas.

A defesa de uma revisão mais ampla inclui examinar o apoio de governos democratas e republicanos a operações militares. O texto relaciona as bases para a guerra contra o Irã ao apoio incondicional do governo de Joe Biden a Israel em Gaza e à falta de consequências para o governo israelense, apesar de evidências de violações de direitos humanos e do direito internacional. Também apresenta os ataques de Trump a barcos suspeitos de tráfico de drogas no Caribe como parte de uma longa política de tratar o combate às drogas como uma “guerra” e de usar a classificação de “terrorista” para justificar ações, inclusive execuções sem devido processo.

Combate à corrupção

A corrupção é apontada como uma preocupação que conecta a política interna à política externa. Uma pesquisa Harris feita para o jornal The Guardian indicou que quase nove em cada dez americanos consideram um problema a situação em que autoridades eleitas priorizam seus interesses financeiros ou os de doadores em detrimento do público. Uma pesquisa econômica da CNBC, realizada em meados de outubro, apontou que os eleitores estavam mais preocupados com a corrupção governamental do que com qualquer outro tema, incluindo os preços dos alimentos e da gasolina.

Em setembro, a Gallup informou que a percepção de corrupção no governo federal havia atingido o maior nível em 20 anos. Segundo o levantamento, 89% dos adultos americanos diziam que a corrupção era generalizada. Diante desse cenário, a proposta é investigar presentes estrangeiros recebidos por Trump, conflitos de interesse de integrantes de sua família, contratos concedidos a doadores e a venda de indultos. Também sugere apurar a atuação do “Conselho de Paz” de Trump para Gaza e possíveis conflitos de interesse dos enviados Steve Witkoff e Jared Kushner.

O plano defende ainda a aplicação de leis já existentes, como a Lei de Transparência Corporativa e a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior. Para o financiamento de campanhas, recomenda uma resposta à decisão da Suprema Corte de 2010 no caso Citizens United, que permitiu gastos ilimitados de empresas americanas em campanhas. Outra medida seria reformar a Comissão Eleitoral Federal, reforçando sua capacidade de investigar crimes eleitorais e restaurando a possibilidade de indicações do Congresso para o órgão.

Custo de vida e nova agenda externa

A política externa proposta também deveria responder ao alto custo de vida, descrito como uma das principais preocupações dos eleitores. Entre as medidas citadas estão contestar o uso de tarifas por Trump, conter a alta dos preços da gasolina associada à guerra contra o Irã e restaurar o imposto mínimo global. O texto também aponta a ameaça de perda de empregos relacionada à inteligência artificial e o poder crescente de empresas de tecnologia sobre a economia e a política.

Como exemplo dessa influência, menciona a restrição da conexão Starlink da Ucrânia por Elon Musk. Para enfrentar problemas desse tipo, a agenda combinaria audiências, investigações de supervisão e propostas legislativas. O texto reconhece que parte dessas iniciativas pode não se transformar em lei nos dois anos seguintes, mas argumenta que elas poderiam servir de base para uma plataforma democrata no Congresso e para uma futura administração, em 2029.

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