Investidores estrangeiros compraram líquido US$ 6,84 bilhões em contratos ligados ao dólar na B3 em 26 de outubro, primeiro pregão após o segundo turno da eleição presidencial. Foi o maior saldo diário da série, ao menos desde julho de 2022, e o movimento foi interpretado por analistas como um ajuste de posições depois da votação. No mesmo dia, o dólar fechou em alta de 8,2%, a R$ 5,40, e chegou a R$ 5,60 durante a sessão.
Contratos futuros concentraram as compras
O levantamento da B3 considera três instrumentos derivativos: o contrato futuro cheio de dólar (DOL), o minicontrato futuro (WDO) e o cupom cambial (DDI). Derivativos são contratos cujo valor acompanha outro ativo ou indicador; no caso dos futuros de dólar, eles permitem assumir posições relacionadas à cotação da moeda, sem negociar dólares físicos.
O DOL respondeu por US$ 4,16 bilhões da compra líquida estrangeira, cerca de 61% do total. O WDO somou US$ 2,58 bilhões, ou 38%, e o DDI, US$ 100 milhões. Assim, os dois contratos futuros de dólar representaram praticamente 99% do saldo registrado no pregão.
O recorde anterior havia sido estabelecido em 4 de abril de 2025, quando os estrangeiros compraram líquido cerca de US$ 6,47 bilhões. O resultado de outubro superou aquele patamar em aproximadamente 5,7%. Na ocasião anterior, o dólar subiu 3,72%, para R$ 5,83, em meio à valorização da moeda americana no exterior após a China anunciar retaliação às tarifas dos Estados Unidos.
André Moraes, analista, fundador e CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, classificou a movimentação como uma possível reversão parcial de posições feitas antes da votação. “Por enquanto, é um ajuste concentrado pós-eleição”, disse.
Um dia respondeu por 61% das compras de outubro
Até 26 de outubro, os investidores estrangeiros acumulavam compras líquidas de US$ 11,15 bilhões nos instrumentos considerados. Desse total, US$ 6,84 bilhões foram registrados apenas no primeiro pregão após a eleição, o equivalente a 61,3%. O valor supera em US$ 2,53 bilhões as compras líquidas somadas nos demais pregões do mês até 23 de outubro.
Com o resultado até o dia 26, outubro ocupava a terceira posição entre os meses de maior compra líquida estrangeira de dólar na série. O maior registro mensal citado foi o de outubro de 2025, com US$ 15,92 bilhões, seguido por junho de 2024, com US$ 12,26 bilhões.
Os dados por tipo de participante mostram que, enquanto estrangeiros compraram líquido US$ 6,84 bilhões, fundos e instituições financeiras venderam juntos cerca de US$ 5,07 bilhões. Empresas não financeiras venderam US$ 1,68 bilhão, e pessoas físicas, US$ 92 milhões.
Esse retrato mede o saldo entre compras e vendas realizadas durante o dia, não necessariamente todas as posições mantidas por cada grupo no mercado. Matheus Medeiros, conhecido como Madruga e analista da Nomos, disse que ainda é cedo para tratar o recorde como sinal de mudança estrutural. “É muito cedo para tomar uma decisão. Pode ser a finalização de uma operação vendida; precisamos identificar melhor o movimento”, afirmou.
Volume de negociação mais que dobrou
Além do fluxo líquido, o giro dos contratos futuros de dólar aumentou. Dados da plataforma ProfitUltra, da Nelogica, mostram que o volume financeiro do contrato cheio com vencimento em novembro passou de R$ 83,08 bilhões em 23 de outubro para R$ 179,09 bilhões no dia 26, alta de aproximadamente 116%. A quantidade de contratos negociados foi de cerca de 330 mil para 656 mil.
No minidólar, o volume financeiro avançou de R$ 140,34 bilhões para R$ 255,17 bilhões, crescimento de cerca de 82%. Os contratos negociados passaram de 2,79 milhões para 4,68 milhões. Somados, os dois instrumentos movimentaram aproximadamente R$ 434 bilhões, ante R$ 223 bilhões no pregão anterior.
Esse volume representa o giro bruto das operações e não deve ser confundido com a compra líquida de US$ 6,84 bilhões dos estrangeiros. O primeiro indicador soma o valor negociado; o segundo compara compras e vendas de um grupo específico de participantes.
Continuidade do fluxo ainda está em aberto
Para Moraes, a permanência do reposicionamento dependerá de fatores como a formação da equipe econômica, as primeiras sinalizações fiscais e o ambiente internacional. “Se a situação não ficar muito complexa no Brasil, para mim esse é primordialmente um movimento de curto prazo”, afirmou, ao comentar também o fluxo de recursos vindo dos Estados Unidos.
Madruga observou que o dólar vinha de uma trajetória prolongada de queda antes da eleição e que a alta poderia representar um repique. Na avaliação técnica do analista, uma cotação acima de R$ 5,93 poderia indicar uma mudança mais clara no movimento, mas o patamar é uma referência de análise, não uma projeção para a moeda.
Os próximos pregões ajudarão a mostrar se o fluxo estrangeiro continuará elevado ou se o recorde ficará restrito a um ajuste concentrado após a eleição. Os números de um único dia, por si só, não permitem determinar quanto das compras correspondeu a uma aposta de alta do dólar, ao encerramento de posições anteriores ou a uma proteção contra variações cambiais.

