O pessimismo de gestores com a economia brasileira atingiu nível recorde na semana anterior à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros. Pesquisa pré-Copom da XP, feita entre 26 e 30 de outubro com 20 gestoras de fundos multimercados macro, mostra que 95% têm uma visão negativa para o país e nenhuma prevê um cenário positivo.
A piora nas expectativas veio acompanhada de mudanças nas carteiras. A estratégia conhecida como “Kit Brasil”, que reúne apostas na alta da bolsa, na queda do dólar e na redução dos juros, perdeu espaço. Segundo a XP, a migração para posições favoráveis à moeda americana, iniciada em junho, se intensificou com o aumento do pessimismo.
Gestores reduzem aposta em corte de juros
As expectativas para a Selic, taxa básica de juros do país, também mudaram. Agora, 75% dos gestores esperam que ela seja mantida em 13,75% na reunião do Copom. Outros 25% ainda projetam um corte de 0,25 ponto percentual, equivalente a 25 pontos-base. Nenhuma das gestoras consultadas prevê aumento.
A projeção para a Selic ao fim do ciclo de ajustes caiu para 13,04%, sinalizando menor convicção de que haverá uma sequência mais extensa de cortes. A decisão do Copom estava prevista para quarta-feira (4), após a realização da pesquisa.
No exterior, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve os juros na faixa entre 3,75% e 4%. Mesmo assim, 70% dos gestores brasileiros consultados ainda veem possibilidade de alta das taxas americanas.
Dólar ganha espaço como proteção
O posicionamento dos gestores em câmbio registrou uma das maiores mudanças da pesquisa. Em setembro, 64% estavam vendidos em dólar, ou seja, apostavam na desvalorização da moeda americana. Na leitura atual, 70% estão comprados, posição que tende a se beneficiar de uma alta do dólar. Os 30% restantes mantêm posições vendidas.
As apostas no real se moveram na direção oposta. A parcela comprada na moeda brasileira caiu de 75% para 21%, enquanto as posições vendidas avançaram de 25% para 79%. A XP afirma que o câmbio, antes usado como um dos meios de expressar o “Kit Brasil”, passou a servir como proteção diante das perdas do período.
O relatório associa a mudança à forte reação dos mercados em 26 de outubro. Naquele pregão, o Ibovespa caiu 13,9%, o dólar subiu cerca de 8% e a curva de juros — que reúne as taxas negociadas para diferentes prazos — abriu mais de 250 pontos-base. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual.
Bolsa brasileira perde posições compradas
O recuo do otimismo também aparece nas apostas em ações. A proporção de gestores comprados em papéis brasileiros, isto é, posicionados para se beneficiar de uma alta, caiu de 70% em setembro para 25%. Ao mesmo tempo, 30% adotaram posições direcionais negativas, que podem ganhar com a queda dos ativos.
É a primeira vez no ano em que as posições vendidas em ações brasileiras superam as compradas, segundo a pesquisa. Nos ativos dos Estados Unidos, a parcela de gestores comprados em ações recuou de 50% para 45%.
A XP atribui parte da volatilidade ao chamado “trade eleitoral”, expressão usada para as apostas relacionadas ao período da eleição. Em documento assinado pelos analistas de fundos Clara Sodré, Luiz Felippo, Pedro Frota e José Pini, a instituição afirma que os gestores reduziram de forma relevante a exposição ao “Kit Brasil” diante do novo patamar de preços.
Projeções para inflação e PIB pioram
O pessimismo das gestoras também se refletiu nas estimativas para a economia. A projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação, em 2026 subiu de 4,97% para 5,24%. Já a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 1,78% para 1,68%.
Na avaliação sobre a economia global, a leitura predominante permanece neutra: 65% dos entrevistados adotaram essa posição.
Apesar das perdas nos mercados, a XP observa que o Índice de Hedge Funds Anbima (IHFA), que acompanha fundos multimercados, recuou 3,9% em 26 de outubro, ante a queda de 13,9% do Ibovespa. A instituição afirma que ajustes rápidos fazem parte da atuação desses fundos e que o horizonte mínimo de avaliação das estratégias segue acima de 36 meses. A XP também descreve os multimercados como instrumentos de diversificação e gestão ativa de risco nas carteiras.

