Juros disparam após eleição e podem alterar retorno de R$ 10 mil no Tesouro


As taxas dos títulos prefixados do Tesouro Direto registraram na segunda-feira (26) a maior alta diária da série histórica do programa, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A mudança derrubou o preço dos papéis no mercado e mostrou como a marcação a mercado pode afetar quem vende antes do vencimento. Simulações do educador financeiro Matheus Oka, da Fire|ce, indicam que uma aplicação de R$ 10 mil no Tesouro Prefixado 2029 poderia ter perdido cerca de R$ 458 em um dia.

Alta recorde nas taxas

O Tesouro Prefixado 2029 passou de uma taxa de 12,76% ao ano no fechamento de sexta-feira (23) para 15,26% no fim do pregão de segunda. O salto superou o recorde anterior, registrado em março de 2020. Embora o Tesouro Direto tenha sido criado em 2002, a série oficial de taxas começa em dezembro de 2004.

A marcação a mercado é a atualização diária do preço de um título conforme as condições do mercado. Quando as taxas sobem, os papéis que já foram emitidos com juros menores tendem a perder valor; quando as taxas caem, podem se valorizar. Oka resume a relação como uma gangorra: “Quando a taxa sobe, o preço desce”.

Na simulação do educador, quem investiu R$ 10 mil no Prefixado 2029 na sexta-feira, com rendimento contratado de 12,76% ao ano, e vendeu na segunda, após a taxa chegar a 15,26%, receberia cerca de R$ 9.542. A diferença seria uma perda aproximada de R$ 458, ou 4,6% do valor aplicado, em um dia útil — equivalente a cerca de quatro meses e meio de rendimento do título.

O cenário pressupõe uma compra e uma venda em intervalo muito curto, algo que Oka considera improvável para um papel com vencimento em 2029. Ainda assim, ilustra por que o preço de um título muda quando surgem alternativas com remuneração maior. “Ninguém aceita pagar o mesmo preço por um papel que rende menos”, afirma o educador.

Vender antes do vencimento muda o resultado

A oscilação do preço não significa, por si só, que o investidor receberá menos ao final do prazo. Segundo Oka, quem mantiver o Prefixado 2029 até o vencimento, em janeiro de 2029, recebe a taxa de 12,76% ao ano contratada na compra. A marcação a mercado afeta o valor de uma venda antecipada, mas não altera as condições acertadas para quem fica com o título até o vencimento.

O educador também simulou o resultado de um investimento de R$ 10 mil feito em 27 de outubro de 2026, com resgate seis meses depois. Foram considerados o Tesouro Prefixado 2029, comprado a 14,79% ao ano, e o Tesouro IPCA+ 2032, que pagava inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais 7,64% ao ano. Para o IPCA+, a simulação adotou inflação de 4,5% ao ano.

Os cálculos consideram o Imposto de Renda de 20% para o prazo de seis meses e a taxa de custódia da B3, a bolsa brasileira. Os resultados líquidos estimados foram:

  • Com queda de 1,5 ponto percentual nas taxas: ganho de R$ 734 no Prefixado 2029 e de R$ 1.111 no IPCA+ 2032.
  • Com queda de 1 ponto: ganho de R$ 670 no Prefixado e de R$ 888 no IPCA+.
  • Com alta de 1 ponto: ganho de R$ 421 no Prefixado e de R$ 57 no IPCA+.
  • Com alta de 1,5 ponto: ganho de R$ 361 no Prefixado e perda de R$ 170 no IPCA+.

Prazo e risco de oscilação

A diferença entre os resultados está relacionada ao prazo dos títulos. O Prefixado 2029 vence em pouco mais de dois anos e, segundo Oka, oscila menos que o IPCA+ 2032, cujo vencimento está a quase seis anos. Na simulação, mesmo com uma alta de 1,5 ponto percentual nas taxas, o Prefixado ainda termina com ganho em seis meses, porque os juros recebidos no período compensam a queda do preço. Pelas contas do educador, o papel só teria prejuízo nesse intervalo se a taxa superasse 19% ao ano.

O IPCA+ 2032 tem maior sensibilidade às mudanças nas taxas. Isso amplia o ganho potencial quando os juros caem, mas também aumenta o risco de perda numa venda antecipada. Na simulação, uma alta de cerca de 1,2 ponto percentual já seria suficiente para deixar o investidor no prejuízo. “É como um carro esportivo: acelera mais, mas também derrapa mais”, diz Oka.

O educador afirma que é possível buscar ganhos com a volatilidade, mas classifica essa estratégia como especulação, que exige conhecer o risco assumido. As taxas voltaram a subir na quinta-feira (29): o Prefixado 2029 era negociado a 14,93% ao ano, enquanto o IPCA+ 2032 pagava juros reais de 7,93%, além da variação da inflação.

Para quem pretende usar o dinheiro perto do vencimento, Oka avalia que manter o título até o fim permite receber a rentabilidade contratada. Já recursos que podem ser necessários antes devem ficar, segundo ele, no Tesouro Selic ou em aplicações com liquidez diária, que praticamente não sofrem os efeitos da marcação a mercado.

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