Cooperativas da Serra Gaúcha se tornam gigantes do vinho e do suco


As cooperativas vinícolas do Rio Grande do Sul ampliaram o processamento e a venda de produtos próprios para responder às mudanças no consumo e dar mais valor à produção dos associados. Em 2025, 12 cooperativas reuniam cerca de 4,7 mil produtores, mantinham 1,4 mil empregos diretos e movimentaram R$ 1,8 bilhão, alta nominal de 25% ante 2021, segundo o Sistema Ocergs.

O estado responde por aproximadamente 90% da produção brasileira de vinhos e espumantes. A adaptação das cooperativas também se reflete no trabalho no campo: em Farroupilha, Nestor Tonin carregava cestos com cerca de 20 quilos de uva quando tinha 16 anos; hoje, aos 54, acompanha o filho Bernardo, de 18, usando tratores e recipientes que transportam até 500 quilos por vez.

Da produção familiar à indústria

A vitivinicultura da Serra Gaúcha se desenvolveu com a chegada de imigrantes italianos, a partir de 1875. As famílias produziam vinho nos porões para consumo próprio e vendiam o excedente. A organização coletiva ganhou força diante dos preços baixos e das dificuldades de transportar a bebida, inicialmente levada em lombos de burros. As primeiras cooperativas foram fundadas a partir de 1929.

Com o aumento das safras, as estruturas familiares ficaram pequenas. Nas décadas de 1950 e 1960, cooperativas investiram em indústrias próprias e passaram a receber uvas, em vez do vinho produzido nas casas. O modelo permitiu ampliar o processamento e padronizar a produção.

A Cooperativa Vinícola Aurora, fundada em 1931 por 16 famílias em Bento Gonçalves, hoje reúne cerca de 1,1 mil cooperados. Cada um cultiva, em média, 2,7 hectares de uva. Na safra de 2026, a cooperativa recebeu 93,3 milhões de quilos, volume 30% maior que no ano anterior.

Em Flores da Cunha, a Nova Aliança surgiu em 2010, após a fusão de cinco cooperativas fundadas entre 1929 e 1931. A união viabilizou investimentos em uma nova unidade industrial e em uma estrutura comercial própria. Desde a fusão, foram aplicados aproximadamente R$ 150 milhões em instalações, armazenagem e tecnologia. A cooperativa reúne mais de 600 famílias e processou cerca de 50 milhões de quilos de uva na última safra.

Marcas próprias e novos produtos

A expansão da Nova Aliança alterou a forma de comercialização. Antes, cerca de 90% do volume era vendido a granel, em caminhões-tanque, para empresas que engarrafavam o vinho com marcas próprias. Hoje, aproximadamente 90% do que a cooperativa comercializa é envasado com suas marcas. A ampliação da capacidade de recebimento também reduziu as filas de caminhões durante a safra.

O suco de uva tornou-se outro eixo de diversificação. Na Aurora, as vendas passaram de cerca de 8 milhões de litros em 2012 para uma projeção superior a 50 milhões em 2026. Atualmente, cerca de 70% das uvas recebidas pela cooperativa são destinadas à produção de suco. Em 2019, a empresa lançou uma bebida gaseificada à base de suco de uva, em garrafa semelhante à de espumante, e mais recentemente passou a oferecer suco integral com gás.

“Não bastava produzir mais uva ou ter uma boa safra. Era preciso ter capacidade de processar essa matéria-prima e desenvolver produtos competitivos”, afirma Rodrigo Arpini Valerio, diretor de Marketing e Vendas da Aurora. Na Nova Aliança, o suco representa cerca de 80% do volume comercializado. Vinhos finos e espumantes, porém, avançaram mais em faturamento: nos primeiros nove meses de 2026, as vendas desses produtos cresceram 25%, com alta de 35% nos espumantes.

Escolhas começam no parreiral

A mudança no portfólio exige que os produtores acompanhem a demanda. Nestor Tonin, associado ao cooperativismo vinícola há 34 anos, deixou de cultivar principalmente Isabel e Bordô e passou a investir em Moscato Giallo, Moscato R3 e Malvasia Aromática, usadas na produção de espumantes. A escolha requer planejamento: um vinhedo novo leva de dois a três anos para começar a produzir, período em que o gosto dos consumidores pode mudar. “Você tem que ser malabarista, apostar um pouco de tudo, né? A velha história do plano B”, diz.

Em Bento Gonçalves, Cristiano Gabardo ampliou os vinhedos da família de 2,5 para cinco hectares. Cultiva Isabel, BRS Magna e BRS Cora para sucos, além de Pinot Noir, Chardonnay e Glera para vinhos e espumantes. “A cooperativa é nossa, então a gente precisa ir onde que o mercado quer”, afirma.

A diversificação pode elevar a remuneração, mas também requer mais investimento e tem custos maiores. Segundo Tonin, Isabel e Bordô rendem entre R$ 1,50 e R$ 1,70 por quilo, enquanto determinadas uvas finas podem alcançar R$ 5. A Nova Aliança informou que o preço pago pela uva praticamente dobrou em dez anos e teve valorização nominal de aproximadamente 22% entre as safras de 2023 e 2026.

Riscos, renda e sucessão

Planejar a produção não elimina perdas. Nas enchentes de 2024, deslizamentos destruíram vinhedos na Serra Gaúcha e causaram prejuízos superiores a 1 milhão de quilos de uva entre associados da Aurora. A cooperativa ofereceu assistência técnica e subsídios para mudas, mas a reconstrução dos parreirais exige tempo até que voltem a produzir.

Safras abundantes também podem pressionar estoques, preços e pagamentos aos agricultores. Para dar previsibilidade à renda, cooperativas garantem o recebimento da uva e parcelam pagamentos. Na última safra, Gabardo entregou 146 toneladas próprias e outras 75 toneladas de uma área vizinha que administra. Ele recebe em dez parcelas mensais, enquanto a cooperativa processa e comercializa as bebidas.

A modernização também pode ajudar na continuidade das propriedades familiares. O relevo acidentado ainda limita a mecanização da colheita, que permanece manual em muitas áreas. Gabardo avalia comprar um drone para pulverizar os vinhedos e reduzir a exposição a defensivos, mas depende de financiamento. Em Farroupilha, Tonin acompanha a quarta geração da família nos parreirais e diz: “Eu estufo o peito e digo: meu filho comprou um trator e tá lá na roça comigo”.

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