A divergência entre integrantes da base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a equipe econômica sobre uma proposta de limitação dos juros aumentou a desconfiança dos investidores na última semana de outubro. A reação incluiu perdas na Bolsa, alta do dólar e avanço dos juros futuros, em meio a preocupações com a influência política sobre as decisões do Banco Central e com a falta de definições sobre o ajuste fiscal.
Proposta prevê queda rápida da Selic
O economista André Lara Resende defende reduzir a taxa Selic, o juro básico usado pelo Banco Central para influenciar a inflação e o custo do crédito, de 13,75% para cerca de 7,5% em um ano. A proposta também prevê um mecanismo que aproximaria as decisões sobre as despesas do governo e o controle do dinheiro em circulação.
Essas duas frentes correspondem, respectivamente, às políticas fiscal e monetária. A primeira envolve gastos e receitas públicas; a segunda, medidas para controlar as condições financeiras e a inflação. Para Lara Resende, elas deveriam operar com metas conjuntas. Críticos, porém, avaliam que essa coordenação poderia reduzir a autonomia técnica do Banco Central e abrir espaço para pressão política sobre a definição dos juros.
O debate não significa que o governo tenha adotado a proposta. O tema, contudo, ampliou a percepção de divergência dentro da base governista e da equipe econômica sobre os rumos da política monetária. Para os investidores, a possibilidade de mudanças nas regras de decisão do Banco Central se soma às dúvidas sobre como o governo pretende equilibrar as contas públicas.
Bolsa perde valor e dólar chega a R$ 5,48
Na última semana de outubro, as empresas listadas na Bolsa brasileira perderam quase R$ 1 trilhão em valor de mercado, segundo o texto de origem. O desempenho foi o pior desde o início da pandemia, em 2020. O Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, também registrou perdas sucessivas, enquanto o dólar subiu para R$ 5,48.
Os juros futuros, que refletem as taxas que os agentes do mercado esperam para períodos à frente, também avançaram. Esse movimento indica que os investidores passaram a exigir retornos maiores diante da incerteza. A reação foi associada ao temor de que uma redução artificial dos juros aumente a inflação e provoque uma crise na cotação do real.
A preocupação do mercado, portanto, não se limita ao nível atual da Selic. Ela envolve a forma como as decisões seriam tomadas e a possibilidade de que a política monetária fique subordinada a objetivos do governo. A fonte não detalha as variações diárias dos indicadores, mas descreve a reação como uma forte desconfiança diante das discussões sobre o tabelamento dos juros.
Fazenda nega plano de tabelamento
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, procurou reduzir a tensão e afirmou que o governo não trabalha, neste momento, com uma proposta de tabelamento de juros. Ele também negou que houvesse um encontro agendado entre Lula e Lara Resende para tratar do assunto.
Durigan disse que o mercado estaria sofrendo de uma “precipitação” e afirmou que as agendas oficiais não continham compromissos que justificassem o temor. A manifestação buscou separar a posição do governo das ideias consideradas heterodoxas ou arriscadas por parte dos agentes econômicos. A declaração, porém, não elimina a divergência política em torno do tema nem esclarece como o governo pretende conduzir o ajuste fiscal.
Dúvidas sobre as contas públicas permanecem
Analistas apontam que a falta de definições sobre quem comandará a economia e sobre como os gastos públicos serão reduzidos amplia a insegurança. Entre as questões em aberto está a origem dos recursos para equilibrar as contas: aumento de impostos, corte de despesas ou encerramento de benefícios tributários. Sem uma indicação clara, investidores temem que o governo priorize gastos em vez da estabilidade fiscal.
Integrantes influentes do PT, como Gleisi Hoffmann, defendem o fim do que chamam de “pensamento único” na economia e criticam o “terrorismo do mercado”. O contraste entre essas manifestações e a tentativa da Fazenda de conter a reação dos investidores evidencia o impasse político. Enquanto o governo busca conciliar promessas de campanha e ajuste fiscal, o mercado cobra previsibilidade sobre as despesas públicas e sobre a condução dos juros.

